O Clube dos Prefeitos só é o que todo o mundo livre e ajuizado sabe o que é também porque o Clube Econômico do Grande ABC é o que é. E o que é? É um fracasso. Clube Econômico é uma expressão que uso pela primeira vez e que passarei a usar sempre que representações da livre-iniciativa forem agenda coletiva de análise.
Mas, afinal, quem forma o Clube Econômico? As sete associações comerciais, as quatro diretorias do Centro das indústrias, o Clube dos Construtores e o Clube dos Bares e Restaurantes. O Clube Econômico não existe de fato como configuração jurídica ou mesmo informal, é bom que se afirme. É apenas um desejo, quando não uma projeção, para não dizer um sonho deste jornalista. O Clube Econômico está tão na cara da necessidade de existir que é o cúmulo dos cúmulos não existir. Está nessa conclusão o fracasso da regionalidade que alguns pretendem transformar em sucesso com o uso do pó de perlimpimpim de fake news.
Ao longo dos anos fiz muitas análises sobre essa turma toda que representa o capitalismo, principalmente de pequenos empreendimentos na região. Agora decidi batizá-los com uma marca que, com o tempo, será tão conhecida e assimilável como caracterização de classe econômica como o é o Clube dos Prefeitos para a classe política. Aliás, Clube dos Prefeitos também é uma identidade coletiva criada por este jornalista. Nada muito mais didático, cá entre nós, do que a oficialidade nominativa do Consórcio Intermunicipal. Consórcio serve para vender carros, habitações e o escambau.
Para facilitar a compreensão dos leitores sobre o estágio de representação e representatividade que esse conjunto de entidades empresariais ocupa, fiz breve lista, na verdade um decálogo que, pretensiosamente, desnuda a todos. Vejam:
1. NEUTRALIDADE FALSA.
2. AUTONOMIA ESTATUTÁRIA.
3. AUTONOMIA RELATIVA.
4. AUTONOMIA ANEXADA.
5. ALHEAMENTO ESTRATÉGICO.
6. ALHEAMENTO ECONÔMICO.
7. RIVALIDADE CORDIAL.
8. DESPREPARO TÉCNICO.
9. BUROCRACIA CEGA.
10. PROMISCUIDADE INDIVIDUAL.
O uso da marca Clube Econômico não descarta marcas semelhantes já utilizadas aqui. Clube dos Construtores, Clube dos Comerciantes e outras mais. Essas marcas continuarão a ser utilizadas, sempre que análises forem centralizadas em atuações específicas. Diferentemente, portanto, de Clube Econômico, que será mais abrangente.
Ou seja: Clube Econômico está para as organizações empresariais assim como o Clube dos Prefeitos para as sete prefeituras. A soma dos dois clubes daria o Clube dos Vinte. Mas tem muito mais pela frente. Nos próximos dias – estou antecipando a novidade – trataremos também, analogamente, do Clube dos Sindicatos e do Clube Social. Vou explicar no devido momento.
Aliás, fossem os dirigentes do Clube Econômico minimamente prospectivos, cuidariam de dar tratos à bola de modo a estudarem uma entidade que os reunissem. Vou tratar disso em outro texto.
Mas não seria essa projeção impedimento a uma incursão provocativa. Em que sentido? Ora, ora, de mostrarem um mínimo de desprendimento e comprometimento social ao tornarem a proposta deste jornalista um desafio de efetividade.
Agora chega: vou avançar nesse projeto outro dia. Voltemos ao Clube Econômico ainda abstrato, de formato meramente alvo de avaliação deste jornalista e dividido em 13 pedaços inúteis sob o ponto de vista do setor em relação ao empobrecimento do Grande ABC. Vamos então a breve definição dos conceitos enquadrados do decálogo:
NEUTRALIDADE FALSA
Na maioria dos casos, ao longo dos tempos, especialmente nas associações comerciais, a tática de se proclamarem apartidárias não se confirmou na prática. Diferentemente disso. Há sempre preferência a determinado grupo de concorrentes eleitorais. É disso que estamos tratando. Quem está no comando do Paço Municipal geralmente tem a preferência de apoio, por mais discreto que seja. O grande erro do Clube Econômico está na permanente ausência de pauta relacionada aos interesses, necessidades e apelo da livre-iniciativa. Resultado? Entre outras perdas, os empreendedores não contam com políticas públicas que os protejam e gerem prosperidade social.
AUTONOMIA ESTATUTÁRIA
Os estatutos de agremiações econômicas são no papel e nas digitais um convite eficiente a percorrer caminhos contra invasores políticos mas, de fato, são um passaporte à flexibilidade. Entre um conceito que projeta o ideal e as circunstâncias que exigem pragmatismo, a distância é estratosférica. O erro ético não está na projeção em forma estatutária ingênua, mas na retórica maliciosa de que a trajetória está sendo cumprida.
AUTONOMIA RELATIVA
Segurar as pontas que separa ações e contrarreações quando interesses conflitivos estão em jogo exige independência. Mas não é assim que a banda das relações entre organizações privadas e públicas toca. A tradição no Grande ABC é de concessões envergonhadas e escorregadias, sempre de acordo com vantagens mútua que jamais preservam a autonomia institucional das organizações empresariais.
AUTONOMIA ANEXADA
A regra geral é de que nas relações entre o Poder Público Municipal e as organizações econômicas sempre haverá submissão dos representantes dos empreendedores. Sempre ou quase dando a impressão de sucesso nas aproximações. O custo-benefício sempre será maior para os empreendedores. Entre a esperteza de gente que sabe como lidar com o poder e com emoções e gente que se acha esperta mas se perde na primeira esquina de prova provada, é claro que as forças politicas sempre levarão vantagem e terão o controle das medidas.
ALHEAMENTO ESTRATÉGICO
O Clube Econômico não dispõe de metodologia para influenciar políticas públicas estruturantes. Individualidades e rivalidades impedem coalizão de medidas que os fortaleça como conjunto que não existe. Sem saber o que querem, qualquer migalha serve. A subordinação ao poder político é compulsória. As sete realidades econômicas do Grande ABC, porque a regionalidade não é algo homogêneo como os ignorantes imaginam, dificultam diálogos e também tratativas de resoluções de dramas diferentes mas contaminados pela interatividade compulsória.
ALHEAMENTO ECONÔMICO
Não há um registro público sequer que aponte agremiação do Clube Econômico que tenha produzido qualquer plano de recuperação econômica municipal ou regional do Grande ABC. O deserto de ideias é alarmante. As entidades não têm sequer um departamento especializado em competitividade municipal. Sem a cartografia de carências e eventuais vantagens competitivas, sobram apenas retóricas vazias permanentemente alimentadas e, por isso mesmo, debilitadoras.
RIVALIDADE CORDIAL
O separatismo municipalista e ambições políticas tornaram as agremiações do Clube Econômico rivais incontroláveis. Já se falou muito em quebra de barreiras, mas o discurso não resistiu à realidade fragmentadora. A visão de futuro não se esgota apenas nas barreiras internas e na ausência de planejamento. Também está limitada e muitas vezes impactada pelos muros municipalistas. O Complexo de Gata Borralheira é um manual aconselhável à compreensão desse quadro.
DESPREPARO TÉCNICO
A ausência de quadros técnicos que tenham informações e iniciativas potenciais a um clique tecnológico acelera o grau de debilidade diante da ausência de compartilhamento de ideias e projetos. Afinal, do outro lado da linha está a escuridão pública de servidores igualmente alheios à complexa arquitetura de inserção econômica. Essa situação coloca o Grande ABC em permanente estágio de fanfarronices públicas e privadas, como se a oralidade oportunista fosse capaz de erguer soluções.
BUROCRACIA CEGA
As entidades do Clube Econômico estão concentradas demais nas demandas de quadros associativos em busca de respostas a pressões corporativas do dia a dia. A legislação em variadas especialidades faz de qualquer empreendimento uma tempestade de desafios. A burocracia estatal reduz o foco produtivo dos empreendedores. Com isso, perde-se a embocadura da importância da institucionalidade como mecanismo de relacionamentos transformadores.
PROMISCUIDADE INDIVIDUAL
Uma das medidas mais certeiras de ascender na hierarquia social é pegar o atalho da representação institucional. O que isso significa? O uso de entidades de classe para se aproximar pessoalmente dos paços municipais é um receituário infalível. Enquanto a política propriamente dita seleciona com o escrutínio sempre duríssimo e incerto dos votos, a proximidade institucional oferece uma porta bem mais larga. O Poder Público Municipal não é uma escalada para amadores. As associações de classe são um meio de encurtar a estrada de sucesso mesmo que sazonal.
24 ANOS DEPOIS
Pretendia avançar nesta análise quando me dei conta de que disponho do único acervo do jornalismo regional dedicado à histórica do regionalismo regional, com perdão da redundância. É claro que se trata de CapitalSocial, publicação digital sucessora da revista de papel LivreMercado, criada por este jornalista há 36 anos.
Para que não me interpretem como detentor de papagaiadas (há sempre um cafajeste iletrado historicamente à espreita, pago com dinheiro público), eis que reproduzo integralmente uma análise que fiz em dezembro de 2002 (portanto há quase 24 anos) sobre a imperiosidade de se construírem iniciativas efetivas envolvendo organizações empresariais locais.
Leiam com atenção. Essa é uma de dezenas de textos sobre o assunto, enquanto, e sou obrigado a fazer esse complemento, as demais mídias da região jamais, jamais e jamais se dedicaram ao tema.
Já imaginaram a região com
uma única entidade empresarial?
DANIEL LIMA -- 03/12/2002
A integração que se espera como alavanca para a superação de problemas históricos do Grande ABC passa pela racionalidade técnico-institucional dos agentes empresariais subdivididos em diferentes entidades. Enquanto prevalecer o desperdício do separatismo das associações comerciais e dos Ciesps, que, como remadores enlouquecidos, movem suas pás em diferentes sentidos num bote que está à deriva e não consegue sair do redemoinho que o engolfa, dificilmente o desenvolvimento econômico sustentável reunirá essa porção importante do capital social.
Considerando-se o formato atual e pregresso das entidades de classe, no qual prevalece em larga escala a hierarquia de dirigentes cujas atividades principais estão voltadas a seus próprios negócios, a pasmaceira institucional viverá de fluxos e refluxos erráticos, sem táticas nem estratégias definidas.
As atividades se darão mais consistentemente como entidades prestadoras de serviços técnicos aos associados. Se por um lado essa vertente é indispensável à manutenção financeira, por outro transforma as entidades em modelo de escritórios de luxo.
Muito se critica e se cobra das organizações públicas do Grande ABC, que a partir do começo dos anos 1990 iniciaram morosa e oscilante conjugação de esforços em algumas áreas. As aproximações são vacilantes em muitos pontos nevrálgicos para a importância desse período de fundas perdas regionais.
Entretanto, mesmo que o saldo não seja extraordinariamente positivo como alguns tentam vender, ou, para ser mais preciso, está muito aquém das necessidades, pelo menos os prefeitos tiveram o mérito de quebrar o gelo de décadas de distanciamento.
Já as associações comerciais e os Ciesps só se lançaram como protagonistas coletivos, mesmo assim distantes da pauta dos empreendedores locais, durante os primeiros anos de Fórum da Cidadania.
Um plano especificamente voltado ao assentamento de questões mais profundamente inquietantes da classe, associado à inserção nos macroproblemas regionais, jamais foi elaborado. Age-se sob influências de pressões pontuais e localizadas em determinados municípios.
Regionalidade continua sendo objeto não-identificado das supostas lideranças empresariais. Apenas a Acisa, com determinados programas, de vez em quando dá um choque de extroversão corporativa, mesmo assim sem o aparelhamento técnico específico que se recomenda.
Pior do que a constatação da falta do acorrentamento voluntário das entidades de classe empresariais é a solidificação do determinismo de manter o isolamento mútuo como prova de independência.
Há muitos anos a Acisa, por exemplo, tem procurado sincronizar ações prestadoras de serviço com as demais associações comerciais, para, entre outros aspectos, alcançar o que se tornou dogma na iniciativa privada: o ganho de escala. Qual nada! Para cada eventual passo dado à frente, sempre aparece alguém para provocar dois passos atrás.
Há muitas questões regionais que poderiam ganhar agilidade se as entidades empresariais fossem unidas e reconhecessem humildemente que há especialistas no mercado que, se contratados por tempo determinado, poderiam oferecer adensamento de qualidade de informações estratégicas às próprias entidades.
Outro dia mesmo sugeri que se contasse com um profissional especializado em IPTU para vasculhar todos os municípios da região de forma a detectar os mais variados aspectos do tributo e, com base nas realidades sempre recônditas, se achassem subsídios para a uniformização dos pleitos.
É impossível falar com seriedade de competitividade sem que se tenha acesso seguro às especificidades municipais da região. O mesmo vale para o ISS, o ITBI e outros impostos e taxas municipais que são uma caixa-preta porque não temos o que convencionamos chamar de capital social.
Muitos outros exemplos poderiam ser citados como atribuições que as entidades de classe empresariais compartilhariam com conhecimento de causa com demais agentes sociais da região.
O caso do trecho sul do Rodoanel é escandalosamente claro. Parece que a Associação Comercial e Industrial de Santo André vai à luta, agora com o empenho das demais entidades. Trata-se de reação atenciosa à proposta deste jornalista, mas é muito pouco ainda: a concentração de interesses estratégicos que fujam do formato essencialmente classista é uma exigência destes tempos. Como tal, obriga à constituição, mesmo que informal, de forças-tarefas decididas a valorizar o temário econômico da região.
O que quero dizer com isso? Que até mesmo de forma independente desse modelo arcaico que esbofeteia a regionalidade pretendida é possível encontrar espaço construtor de organização integrativa em questões de responsabilidade institucional. Não é, certamente, a solução ideal, que passa pela compactação e enxugamento das representações classistas dos empresários. Mas é um arremedo que quebra o galho e pode, se bem instrumentalizado, induzir à amarração estrutural mais ampla.
Traduzindo tudo isso de forma bem didática:
O ideal é que as associações comerciais e os Ciesps da região se fundissem num único organismo regional, com gestão compartilhada de base representativa igualmente regional e que se debruçasse sobre questões assemelhadas e diferenciadas de forma engenhosa.
Enquanto o bom senso perde o jogo para o individualismo, que se planejem ações integrativas de cunho institucional e voltadas ao desenvolvimento econômico sustentável, por meio de força-tarefa diretiva que atuaria mutuamente além de suas próprias e antiquadas fronteiras. Seria um remendo interessante para se chegar ao modelo ideal. Um caminho pragmático que ultrapassaria as barreiras provincianas. Um chute nos fundilhos do municipalismo que deveria ser riscado do mapa geoeconômico regional.
Será que nem disso serão capazes os dirigentes das associações comerciais e dos Ciesps e também os demais sindicatos empresariais da região, caso do varejista, dos hotéis e bares, dos moveleiros e tantos outros menos votados? Será que a maioria de seus titulares não entendeu ainda que o jogo da institucionalidade mudou completamente com a globalização e que, exatamente por isso, regionalidade passou a ser palavra de ordem?
O setor público regional — uma variante do setor público estadual e federal — está muito à vontade para impor seu jogo porque não sofre qualquer pressão organizada e planejada de agentes econômicos. É por essas e outras que todos os problemas nacionais e estaduais, sobretudo o avanço pantagruélico sobre o bolso dos contribuintes, têm a mesma fundamentação lógica: a bobagem do restante da sociedade em se manter dividido e individualizado, imaginando que um passo à frente, de vez em quando, não seja apenas uma traquinagem ótica porque, quando isso se dá de fato, o bonde da história há muito passou pela estação da responsabilidade compartilhada e produtiva. Esse jogo em que a sociedade desorganizada sempre perde precisa mudar, como recomenda o teórico da Terceira Via, Anthony Guiddens.