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Imprensa

DANIEL LIMA - 13/03/2026

É impossível dar tratamento à Barcaça da Catequese, que é o Diário do Grande ABC inserido na vida regional e é a vida regional inserida no Diário do Grande ABC,  sem que se resgatem aqueles poucos meses como ombudsman do jornal, em 2015.  Era minha segunda vez  a ocupar a função de forma oficial. À revelia do jornal, continuo no cargo. A primeira vez oficial foi registrada em  2004, estendendo-se a 2005.

O que os leitores vão ler na sequência são apenas trechos de abertura de 22 colunas Contexto ABC que produzi e foram publicadas no Diário do Grande ABC entre abril e setembro de 2015. Há praticamente 11 anos.

De fato, aquele trabalho era uma extensão do que realizei parcialmente com a equipe de Redação que encontrei no jornal em 2004. Cheguei com o Planejamento Estratégico Editorial e saí, naquela ocasião,11 meses depois. Agora, em 2015, observava a possibilidade de resgatar princípios importantes que se desmancharam ou foram fortemente impactados.

A diferença entre uma passagem e outra é que desta vez, em 2015, me demiti do cargo. Não foi um troco. Longe disso. O entusiasmo com que iniciei a nova atuação murchou aos poucos. Não sei viver sem perspectivas. Os leitores mais atentos não terão dificuldades de detectar as razões, mesmo com o corte de 86% do volume do agregado dos textos de 22 colunas. Isso mesmo: o que os leitores vão ler na sequência são apenas 16% do total que escrevi em 2015. 

Acho que aquela experiência valeu a pena, porque foi possível resgatar parte dos conceitos básicos que entendo como jornalismo com compromisso social. Sei lá como os leitores identificam essa definição, mas é o que tenho a oferecer.  Jornalismo com compromisso social é colocar-se como profissional de comunicação social acima de interesses pessoais e profissionais de quem quer que seja. Uma missão de suprema idiotice num País de bandidos sociais.  Vamos aos trechos iniciais das 22 colunas: 

 

Diário ensandecido 

ameaça meus textos 

 DANIEL LIMA – 12/04/2015   

O Diário do Grande ABC está procurando me sabotar. Bendita sabotagem. Não é que o jornal mais importante da região resolveu atacar para valer nos últimos dias questões simbólicas de novos tempos editoriais? Pensem bem: o que vou fazer se este Diário engrenar uma sequência interminável de reportagens que surpreendam os leitores num primeiro estágio e depois se consolide mais e mais como parceiro indissociável das demandas sociais?  O chega prá-la na Pirelli agora com vestimentas e alma chinesas não é pouca coisa para um jornal regional que, como todo jornal regional de verdade, não pode abdicar da autorização explícita da sociedade para atuar incisivamente em sua defesa. E fixar os olhos no futuro da Pirelli deve ser exercício permanente. A extensão a outras empresas também. Não podemos deixar escapar entre os dedos da indiferença companhias tão importantes ao equilíbrio social e econômico da região.   

 

Voo panorâmico revela 

eletricidade da Redação 

 DANIEL LIMA – 19/04/2015   

Não preciso frequentar a Redação deste Diário para sentir eletricidade no ar, assim como um médico razoavelmente competente sabe que diante de si está um paciente com problemas sérios e um engenheiro qualificado que bate os olhos numa construção e percebe que há encrenca pela frente. A cada nova edição do jornal o que se observa é um rito operacional que não deixa dúvidas: disputa-se um lugar principalmente na corrida de espermatozoides pela manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) para contemplar a sociedade com informações relevantes. Por essas e outras deixo de lado o voo rasante de perscrutar inconformidades editoriais. O voo panorâmico indica novos caminhos a desbravar. O leitor do Diário do Grande ABC que ainda não percebeu mudanças possivelmente está no piloto automático típico de quem esquece o filho no banco de trás do veículo. Graças ao empenho dos jornalistas comandados por Sérgio Vieira este Diário parece estar decididíssimo a assumir de vez a agenda regional metamorfoseada por terceiros ao longo dos tempos. 

 

Diário cristaliza linha 

editorial mais incisiva 

 DANIEL LIMA – 26/04/2015   

O Diário do Grande ABC não pode abrir mão de conectar os leitores com o mundo real desses mais de 800 quilômetros quadrados de território. É o está fazendo nas últimas semanas de forma mais enfática. Algumas cidadelas parecem à beira de um ataque de nervos. Outras provavelmente vão sentir o peso de uma linha editorial mais incisiva. Os acomodados devem estar muito preocupados. Esta Província ainda tem muito a ser remexida, mas já é um bom começo. Já imaginaram os leitores como estão a conversar os mercadores imobiliários que, justamente por serem mercadores imobiliários, colocam a responsabilidade social no quarto de despejo de relacionamento com a sociedade? Sim, depois da saraivada de matérias reveladoras sobre as estripulias do magnata do setor, o empresário Milton Bigucci, presidente do Clube dos Especuladores Imobiliários, o que replicantes estão a projetar?  

 

Uma quinta marcha 

desafiadora ao Diário 

 DANIEL LIMA – 03/05/2015   

Na semana que sempre termina às sextas-feiras por causa do compromisso de entrega desta coluna, o Diário do Grande ABC surpreendeu quem ainda duvida do engate de uma quinta marcha em direção a reformas conceituais no jornalismo impresso da região. Foi uma semana de distribuição de bons produtos editoriais. Principalmente porque passou pela prova de fogo de que está exorcizando o triunfalismo a que se entregou durante muito tempo quando, se não escondeu, ao menos minimizou em vários períodos a gravidade econômica e social da região.  Provavelmente a mais emblemática das manchetíssimas (manchete das manchetes de primeira página) deste Diário na semana tenha sido a abordagem da edição de quarta-feira. “Economia das sete cidades encolhe pelo 4º ano seguido” resume bem a nova etapa deste Diário. O recado parece ser o seguinte: se duvidam que tudo mudou é melhor que se preparem, porque tudo mudou mesmo. “Mudamos para mudar” seria um bom slogan de uma campanha publicitária. Jornalismo impresso normalmente só muda o modelo gráfico, mantendo a mesmice da estrutura editorial.   

 

Trimanchetíssima salva 

semana de solavancos 

 DANIEL LIMA – 10/05/2015   

A trimanchetíssima da edição de sexta-feira salvou uma semana (que começa na sexta-feira e termina na sexta-feira seguinte) de oscilações editoriais deste Diário. É natural que haja solavancos mesmo com uma equipe motivada. Jornalismo é atividade que exaure o emocional e o psíquico. Principalmente num jornal regional tradicionalmente sob pressão de forças estranhas à Redação. Ao incorporar a pior captação da caderneta de poupança desde 1995, o recuo da produção de veículos ao índice de 2007 e o maior saldo de desemprego desde 2011, a manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) virou trimanchetíssima. O neologismo do neologismo resume um golpe certeiro e deve ter atingido em cheio o apetite dos leitores. Nada melhor para atenuar mais uma vez uma abordagem imprecisa sobre o custo das apólices de seguros de veículos na região, temática levada à manchetíssima de domingo passado sob o título “Seguradoras ignoraram queda de roubos e furtos de veículos no Grande ABC e preço dispara”. É a segunda vez nos últimos tempos que este Diário insiste em tentar provar que somos discriminados pelas companhias de seguros. 

 

Acisa é emblemática da 

nova fase deste Diário 

 DANIEL LIMA – 17/05/2015   

A Carta do Grande ABC da primeira página da edição de segunda-feira, quando completou 57 anos de circulação, é um compromisso inédito deste Diário com seus leitores. Mesmo os leitores mais assíduos e antigos talvez não tenham notado a diferença entre o que está posto e o que já foi posto. Jamais na história desta publicação houve um movimento coordenado entre redação e direção para acabar com a farra dos improdutivos que infestam este território.  Essa é a grande diferença de tudo o que se fez antes, porque antes o Diário acreditava piamente nas individualidades e nas instituições da região, enquanto agora, até prova em contrário, desconfia de todos. É melhor assim, porque dessa semeadura o tempo dará frutos muito mais saudáveis. A semana deste colunista abelhudo que sempre começa numa sexta-feira e termina na sexta-feira seguinte vai ficar prejudicada em análises porque a prioridade é a Carta do Grande ABC.   

 

E a ficha de novos 

tempos vai caindo 

 DANIEL LIMA – 24/05/2015   

Devagar, devagar, vai caindo a ficha de novos tempos editoriais, muito mais incisivos, muito mais contundentes. As placas tectônicas de gente acomodada começam a tremer. Dirigentes de associações comerciais e ouvidorias sentiram-se pressionados pelas matérias desta semana que terminou. Os primeiros porque foram colocados a nu na inoperância organizacional. Os segundos porque não passam de cartas marcadas do Poder Público. Tomara que esses alvos já atingidos e tantos outros na alça de mira de um jornalismo comprometido com a região não comecem a ver fantasmas de defenestra mento generalizado. Nada disso. Houve apenas uma mudança no centro de gravidade da linha editorial. O que este Diário transmitiu claramente com a Carta do Grande ABC de 11 de maio é que não está satisfeito. Tanto que se penitencia em relação à desindustrialização mal avaliada desde o século passado. Se este jornal pega no próprio pé, o que dirá então de terceiros que jamais se aproximaram da institucionalidade alcançada pela publicação?   

 

Fontes diversas exigem 

cuidados redobrados 

 DANIEL LIMA – 31/05/2015   

Há uma distância quilométrica entre triunfalismo e alarmismo, mas esses extremos podem se tocar. Este jornal parece estar completamente recuperado do período em que acreditava que o olhar cor de rosa era a solução de todos os problemas. O realismo tomou conta das páginas, mas ainda há escorregões que bandearam para o lado oposto, de sensacionalismo. Nada proposital, evidentemente. Apenas uma questão de encaixe da entonação editorial. Um corredor acostumado a maratonas precisa de período de adaptação para percursos mais curtos e intensos. A recíproca é verdadeira. Este Diário se equilibra em meio às dificuldades de seguir novo plano de voo. Seria ótimo se outras instituições da região tivessem o mesmo espírito crítico. Sim, instituições, porque esse quase sessentão jornal é mais que um conjunto de páginas impressas diariamente. É um poder social do qual muitos não se dão conta e outros pensam que se dão conta. A semana de análise das edições deste jornal, que começa sempre aos sábados (nunca às sextas, como já escrevi aqui) e termina na sexta-feira seguinte é prova provada de que os ajustes editoriais varejistas vão exigir atenção total. Já os acertos editoriais atacadistas, de perseguição permanente aos preceitos impressos em 11 de maio último, seguem em evolução. 

 

Uma sociedade que 

precisa se organizar 

 DANIEL LIMA – 07/06/2015   

Este Diário não tem obrigação solitária de organizar uma sociedade desorganizada, mas pode ajudar solidariamente uma sociedade desorganizada a se organizar. O que parece óbvio deveria virar mantra. Há gente que imagina que este jornal é o salvador da pátria regional empobrecida e apodrecida ao longo de décadas. Parafraseando o filme “Crimes ocultos” que acabei de assistir, uma parcela substancial das chamadas lideranças locais pregou o tempo todo que não havia desindustrialização no paraíso da industrialização. Deu no que deu. A manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) da edição de terça-feira deste Diário sobre a debandada do que restou da unidade da Basf em São Bernardo é mais uma prova provada de que o tempo de enrolação e de mentirinhas para dourar a pílula regional já passou. Esconder a realidade típica de paraísos autoritários se comprovou doloroso mecanismo de sujeição aos aproveitadores de plantão. Só por isso – e a Basf é exemplo emblemático da linha editorial mais incisiva deste jornal – já valeria a pena acreditar na publicação como ferramenta contributiva à maratonista empreitada de reduzir os estragos acumulados.  

 

Um teste pedagógico 

sobre rumos do Diário 

 DANIEL LIMA – 14/06/2015   

Vou fazer o que chamaria de teste pedagógico com os leitores deste Diário sobre este Diário e para que este Diário seja entendido externamente e também nos interiores de sua Redação. Considerando-se que a “Carta do Grande ABC”, publicada na primeira página deste jornal em 11 de maio, explicita agora como cláusulas pétreas 10 pontos essenciais à regionalidade do Grande ABC, qual dessas manchetíssimas (manchete das manchetes de primeira página) está fora do esquadro nas últimas sete edições às quais me dediquei a analisar, já que minha semana sempre começa aos sábados e termina na sexta-feira seguinte? a) Escândalos derrubam Cleuza Repulho; b) Arrecadação com multas de trânsito cresce 43% no ABC; c) Justiça manda São Bernardo limitar cargos comissionados; d) Produção de veículos no País registra pior maio da década; e) Empresários do ABC dizem que pacote de Dilma não alivia crise; f) Inflação vai a 8,47% e tem o maior índice desde 2003; g) Empresas de Bigucci entram na dívida ativa de Sto. André por dever impostos. Reproduzidas as manchetíssimas em ordem cronológica, concedo pelo menos dois minutos de reflexão aos leitores que pretenderem entender a razão da pergunta central deste texto, que repito: qual das manchetíssimas está fora do lugar, considerando-se a regionalidade do Grande ABC? 

 

Se apertar para valer 

eles confessam tudo 

 DANIEL LIMA – 21/06/2015   

O prefeito Saulo Benevides, de Ribeirão Pires, deu a senha com a qual este Diário deveria abrir todas as portas em direção à redenção editorial. Basta apertar os agentes com atuação pública que eles confessam. Tradução: na medida em que este jornal não der moleza aos protagonistas do jogo político, econômico e social da região, como não o fez durante a semana de cobrança de projetos para adequação das prefeituras ao Plano Nacional de Educação, provavelmente mais eles vão se embananar. Quem está na chuva da notoriedade tem de aguentar o repuxo de cobranças. A maioria não suporta e abre o bico. Como o prefeito Saulo Benevides, que clonou o Plano Nacional de Educação do governo federal sem ter o cuidado de adaptar à realidade local os extravagantes números federais.  A manchetíssima de sexta-feira salvou a semana de análises deste quase ombudsman, porque mais que ombudsman. O título “Ribeirão Pires plagia plano nacional de Educação e faz projeto esdrúxulo” sintetiza a derrapada de um administrador público que correu para dar conta de recado de legalidade alertado por este Diário. Foi uma sequência de matérias que causou alvoroço nos paços municipais. Do alvoroço ao tropeço foi questão de tempo.  

 

Faltou manchetíssima 

do desabafo de Lula 

 DANIEL LIMA – 28/06/2015   

Este Diário engatou uma semana de manchetíssimas bem encaixadas, sempre considerando o decálogo de regionalidade publicado em 11 de maio. Não fosse a ausência do desabafo do ex-presidente Lula da Silva sobre o esclerosamento do PT no topo de todas as manchetes de primeira página, a semana que começou no sábado e terminou na última sexta-feira teria recuperado os descaminhos da anterior. lula fora da manchetíssima, portanto, foi um erro grave. Como também ficou fora da primeira página, o erro se tornou gravíssimo. Poderia ter estado em chamada conjunta com as novas bobagens do prefeito Luiz Marinho que, naquela edição, voltou a atacar este jornal. Portanto, a melhor resposta à epilepsia vernacular de Marinho foi dada por Lula da Silva, seu dileto primeiro amigo. Já imaginaram Marinho e Lula, numa montagem gráfica, olhando um para a cara do outro, o primeiro dizendo que este jornal é uma porcaria, como disso, e o segundo afirmando que o PT virou o fio?   

 

Desmanche de cidadania 

arrefece força do jornal 

 DANIEL LIMA – 05/07/2015   

Demorou um bocado para este Diário chegar a números consolidados sobre roubos e furtos de veículos de modo a justificar a luta pelo rebaixamento do preço de apólices de seguros na região. Uma das manchetíssimas (manchete das manchetes de primeira página) desta semana abordou o primeiro ano de execução da Lei do Desmanche. E os dados estão lá, clarificados. Já temos histórico de 12 meses de viés de queda de registros criminais na modalidade. Está na hora, portanto, de as companhias de seguro reprogramarem custos, reduzindo-os sem pestanejar. Entretanto, nada até agora foi anunciado. E não o será se a cidadania regional seguir adiante nessa pasmaceira geral. Faço a seguinte pergunta: cadê as OABs, as associações comerciais, os Ciesps, o Clube dos Prefeitos, as entidades diversas que não se mobilizam para dar continuidade à empreitada deste jornal? Querem a resposta? A inapetência é coletiva, a vagabundagem de interesses corporativos e pessoais é generalizada. Está certo que pouco fizemos ao longo dos tempos para merecer alguma coisa que resvale no conceito de cidadania. Não me venham com a história da Carochinha de que o movimento sindical foi um divisor de águas na região. Embora importante, Lula da Silva e seus aliados que compõem a dinastia sindical sempre pensaram e agiram para favorecerem-se mutuamente. Sociedade organizada uma ova. Sempre tivemos grupos organizados em torno de vantagens comparativas.  

 

Melhor manchetíssima 

não foi manchetíssima 

 DANIEL LIMA – 12/07/2015   

Na semana que passou a melhor manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) deste Diário não foi uma manchetíssima. Calma leitores que não há nada de errado no enunciado. A melhor manchetíssima foi uma fotografia gigante publicada na primeira página colhendo um aposentado de Santo André que teve sua cadelinha Cindy encontrada e devolvida. O flagrante assinado por Celso Luiz foi pungente -- mas muito mais que isso. Talvez este jornal devesse adotar o Projeto Cindy como tradução da Carta do Grande ABC publicada na primeira página de 11 de maio último, quando completou 57 anos de circulação. Muito além da emoção que perpassou aquela foto com uma legenda explicativa especial, o reencontro de Cindy com seu dono de 82 anos condensa a regionalidade que deve pautar esta publicação. Enquanto houver um leitor a ultrapassar os limites convencionais de consumidor de informação, transformando-se em agente de solidariedade, este jornal não poderá perder o foco de que seu principal limite, sempre conectado ao mundo, são os 840 quilômetros quadrados que envolvem os sete municípios. Como os leitores deste jornal não são apenas solidários, mas também consumidores, torcedores, motoristas, frentistas, dentistas, empresários, engenheiros e sindicalistas, entre tantos de uma lista sem fim, imaginem o tamanho da responsabilidade em cada centímetro quadrado de texto que ganha a forma da publicação? 

 

Sobram armadilhas na 

trilha do regionalismo 

 DANIEL LIMA – 19/07/2015   

O potencial de aceleração do projeto de regionalismo editorial deste Diário depende tanto de fatores internos (da corporação em si) como de fatores externos (especialmente de lideranças da sociedade). Não dá para acreditar que a maquinaria do provincianismo ceda espaço à regionalidade sem imbricamento entre este veículo e agentes sociais. Por isso, a interdependência não pode ser subestimada. E nesse ponto, uma reengenharia editorial é imprescindível. A reestruturação espacial dos insumos deste jornal emerge, portanto. Clichês que protejam o jornalismo voltado fortemente aos sete municípios de quase três milhões de habitantes precisam ser relativizados, quando não bombardeados. Por exemplo: dizer que o buraco da rua tal é mais importante que um acontecimento fora do território regional não corresponde compulsoriamente às necessidades locais. Ainda nesta semana este Diário deu ênfase semelhante a um buraco de rua e uma nova sessão sobre a reforma política. É claro que há equívoco no tratamento. Reforma política interessa diretamente à regionalidade. Ainda mais agora que pegou fogo no Congresso Nacional, saindo da pasmaceira de muitos anos. Este jornal precisa diagramar a ocupação de espaços de acordo com a Carta do Grande ABC de 11 de maio último, quando listou os 10 pontos cardeais que alimentariam a Redação. A compartimentação convencional precisa ser mais flexível. Há carga excessivamente valorizadora da política regional, proeminentemente varejista, em detrimento da economia e de seu entorno. Dá-se ênfase excessiva a temários miúdos da política regional e subestimam-se transformações no tecido econômico com marcantes implicações sociais.   

 

Pênaltis desperdiçados 

complicam resultados 

 DANIEL LIMA – 26/07/2015   

Manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) é espécie de penalidade máxima no futebol. Não qualquer penalidade máxima, mas penalidade máxima assinalada pelo árbitro no último minuto de jogo. Gol feito, vitória conquistada, é possível esquecer ou desprezar erros cometidos durante a partida. Gol desperdiçado é tropeço que realça a falta de competência para vencer, mesmo que a equipe tenha feito boa partida. Pois no resumo de penalidades máximas deste Diário durante a semana que começou sábado passado e terminou na sexta-feira seguinte, mais derrotas que triunfos se contabilizaram. Não esperava discorrer sobre aspectos varejistas deste Diário, mas é indispensável assinalar que, por mais que pareçam circunstanciais, as manchetíssimas daqueles sete dias são denúncias de fissuras estruturais. Vamos à cronologia e à breve análise do material.   

 

Quem disse que jornal 

perdeu embocadura? 

 DANIEL LIMA – 02/08/2015   

Quem acredita que jornais impressos estão com munição esgotada nestes tempos de plataformas digitais, especialmente de redes sociais, precisa relativizar epitáfios. Ao debelar incêndio de insensatez dos legisladores de Diadema, que pretendiam autoconcederem 49% de reajuste salarial, este Diário mostrou do que é capaz se não abrir mão de um editorial incisivo, persistente, incômodo e até mesmo novelesco. Contando com o suporte da versão online e tendo o providencial respaldo, no campo de luta em Diadema de forças vivas da comunidade, este Diário ajudou a acabar com a farra de uma maioria encabrestada pelo Executivo e de uma minoria sempre disposta a arrumar brechinha para se locupletar -- como é a tradição dos legislativos desta Pátria. Foi uma combinação perfeita. Deveria servir de referência a novas jornadas dinamitadoras de escândalos. Já imaginaram se houvesse tido em Santo André algo semelhante à reação de Diadema quando o promotor criminal Roberto Wider Filho só encontrou larápios entre servidores públicos no escândalo do Semasa ou se o Legislativo de São Bernardo fosse pressionado por forças vivas da sociedade a exigir o reenquadramento legal do empreendimento Marco Zero, da MBigucci, desavergonhadamente protegido pelo prefeito Luiz Marinho? 

 

Jornalismo Luluzinho 

consagra sindicalismo 

 DANIEL LIMA – 09/08/2015   

Seria baita estupidez afirmar que o sindicalismo utiliza arsenal de marketing como focinheira nos veículos de comunicação -- jornais impressos como este Diário, por exemplo. Focinheira pressupõe algo perigosamente reativo e este Diário, como todos os demais diários impressos e digitais, está a léguas de distância do sentido rottiwaileriano desejado à atividade. É mais apropriado afirmar que os jornais, inclusive este Diário, são luluzinhos, raça que serve mais como decoração, como enfeite, do que como segurança providencial. O PPE (Programa de Proteção ao Emprego) é a prova viva do estado moribundo do jornalismo sequestrado por declarações que consagram sindicalistas de todos os naipes. Principalmente, no caso do Grande ABC, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, comandado por dinastia afinadíssima que começou com Lula da Silva no final dos anos 1970. Duvido que não tenha saído exclusivamente do forno marquetológico do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC a notícia sobre o primeiro acordo na região para a consumação do PPE, que contemplará a autopeças Rassini Automotive, de São Bernardo. A assessoria de imprensa do sindicato deve ter trabalhado um bocado. Praticamente em todas as modalidades de mídia as reportagens seguiram o mesmo padrão informativo. Apenas este jornal tomou cuidado de ouvir outros personagens. E o fez de forma relatorial.   

 

Desindustrialização 

perde para políticos 

 DANIEL LIMA – 16/08/2015   

Manchetíssima desperdiçada é como o tempo: não se recupera mais. Pois este Diário perdeu grande oportunidade de garantir sequência de matérias sintonizadas com um dos 10 quesitos que constam da Carta do Grande ABC, compromisso público com os leitores explicitado na primeira página de 11 de maio último.  Ao deixar escapulir a manchetíssima mais óbvia da temporada, na última quinta-feira, e, mais que isso, tornar mais importante uma notícia vinculada à possível introdução do Código de Ética no Legislativo de Santo André, este Diário executou o que seria no mundo televisivo um episódio típico do Inacreditável Futebol Clube. Ao perder o gol mais incrivelmente fácil desta temporada, este Diário deu provas de que ainda está distante dos próprios desígnios que se impôs como desafio de iluminar a regionalidade do Grande ABC.  É claro que estou me referindo à manifestação dos 300. Não, não nada a ver com guerreiros gregos que viraram história cinematográfica. Os 300 de Santo André eram empresários, familiares de empresários e também trabalhadores alinhados aos empresários. Eles foram às ruas contra a crise econômica do País e também contra políticas econômicas locais. Eles entregaram uma carta aberta no Clube dos Prefeitos, onde o titular Gabriel Maranhão recebeu os líderes do movimento. Nenhuma das várias deficiências de organização, nem mesmo alguns dos personagens mais que manjados entre os manifestantes, minimiza a importância daquele evento. 

 

Representante do leitor 

mais próximo de insumos 

 DANIEL LIMA – 23/08/2015   

A partir desta segunda-feira estarei mais próximo dos insumos deste Diário. Uma newsletter vai me levar virtualmente aos responsáveis pela produção desse veículo de comunicação. Desta forma, darei um passo a mais em direção ao conceito de ombudsman que não sou, porque sou mais que ombudsman. Agora, com a newsletter, serei um quase-quase ombudsman. Desde o início de minhas atribuições neste Diário, em maio, imaginava relação mais intestina. Já frequento uma ou outra reunião de pauta. Agora invado, no bom sentido, o território que produz o jornal mais tradicional da região. O que batizei de “ContextoABCCorporativo” vai ser uma via de mão dupla que, entre outras vantagens aos leitores, possibilitará melhor acabamento de análises. Passarei a ter mais referenciais à emissão de juízo de valor das edições.  A melhor manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) da semana que começou sábado e terminou sexta-feira foi registrada na edição de quinta-feira. “Sem propostas contra crise, empresários do ABC cancelam reunião”. Um verdadeiro chute provocativo no nariz empinado das lideranças empresarias que mobilizaram 300 manifestantes uma semana antes nas ruas de Santo André. A reportagem deixou os líderes da iniciativa numa sinuca de bico: ou apresentam na reunião programada para esta segunda-feira no Clube dos Prefeitos e na Agência de Desenvolvimento Regional material substancioso sobre a agenda econômica do Grande ABC ou precisarão recorrer a algum modelo de justificativa que não os desmoralize. 

 

Até que ponto OAB 

tem credibilidade? 

 DANIEL LIMA – 30/08/2015   

Há uma questão em suspense que tem tudo a ver com a Carta do Grande ABC publicada por este Diário na primeira página de 11 de maio com cláusulas pétreas de nova fase editorial. Trata-se do seguinte: por que a denúncia do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, unidade de Santo André, contra a Administração do prefeito Carlos Grana, não ganhou destaque na primeira página, com potencial de manchetíssima (manchete principal) da edição da última sexta-feira? Antes, recomendo que a resposta seja condicionada a duas vertentes. Primeira: se o presidente da OAB-Santo André, Fábio Picarelli, conta com credibilidade, respeito e independência, a denúncia encaminhada ao Ministério Público deveria disputar não só o topo da primeira página como também, na página interna, a reportagem deveria estar acima de todas as demais, não abaixo. Segunda: se o presidente da OAB-Santo André, Fábio Picarelli, não é um dirigente com credibilidade, respeito e independência, a denúncia encaminhada ao MP nem deveria ter sido publicada; ou poderia ser reservado microespaço, de simples registro.

 

Economia perde de 

goleada da política 

 DANIEL LIMA – 06/09/2015   

Qualquer semana dessas, se estiver com a macaca, vou aferir o total de caracteres, de palavras, dos textos dedicados à política partidária e compará-los ao material publicado sobre a economia regional neste Diário. Para dizer a verdade, nem preciso dar a esse trabalho. A diferença é flagrante. Vivemos a maior crise econômica da região em todos os tempos e seguimos, como no passado, cedendo espaços generosos demais ao varejismo político-partidário-eleitoral. Ainda se fossem, em larga parte, sobre gestão pública no sentido nobre do termo, seria possível atenuar o desastre. Os jornais da região se repetem na generosa cobertura de assuntos políticos cuja importância restringe-se a poucos agentes. Dá-se valor demais a uma atividade muito mal vista pelos leitores. Basta recorrer às pesquisas sobre o que os brasileiros menos respeitam: os políticos lideram a tabela de ponta cabeça.   

No caso do Grande ABC, a submissão do noticiário econômico à espacialidade privilegiada de gente que não sai da zona do agrião da política pela política é demais. Este Diário dará um salto em direção à sociedade consumidora de informações se decidir equilibrar esse jogo. Menos política, mais administração pública, mais economia regional. Eis uma conjugação perfeita para que a Carta do Grande ABC não patine -- como está a patinar. 



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