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Regionalidade

DANIEL LIMA - 30/03/2026

Se o leitor pensa ou imagina ou tem certeza que condensar os grandes, médios e pequenos problemas do  Grande ABC em sete compartimentos é uma missão qualquer, está redondamente enganado. Assumi o risco de cometer algumas bobagens por esquecimento ou arbitrariedade e listei o que chamo de sete pedras no meio do caminho do futuro da região.

Nenhuma novidade quando vista de perto. São temas recorrentes desta publicação. Mas nada descartável também. Embora os temários não sejam novidades, há abordagens mais contextualizadas, por assim dizer.

As sete pedras no caminho do Grande ABC rumo a um destino que recupere parte do viço econômico e social do passado que já passou são uma forma de sugestão de pauta,  principalmente ao Clube dos Prefeitos da atual turma. Temos um Clube dos Prefeitos melhor que várias formações anteriores, mas ainda  muito deficiente no coração da recuperação regional que se pretende – o Desenvolvimento Econômico com compulsórias repercussões sociais.

PEDRAS DE TOQUE?

O que os leitores vão ter em seguida é breve exposição de cada um dos compartimentos temáticos essenciais a cirurgias profundas. Há entre essas pedras a sincronia que tanto as une para o agravamento do quadro atual como também, compensatoriamente, a possibilidade de, vigorosamente examinadas e atacadas, multiplicarem efeitos positivos de abrandamento e mesmo de recuperação do tecido regional.

Trocando em miúdos: as sete pedras estruturalmente convertidas em mapeamento desafiador ao Grande ABC também são as sete pedras que podem retroalimentarem-se e multiplicar soluções. Essa tarefa não é de apenas um mandato dos atuais prefeitos do Clube dos Prefeitos. Seria pretensão demais exigir dos atuais Executivos o que a quase totalidade dos antecessores negligenciou ao longo dos anos.

Mas, e isso é fundamental à compreensão geral, o atual Clube dos Prefeitos não pode deixar de começar o que já deveria ter começado. Por isso, essas pedras estão no meio do caminho de uma jornada que ainda não se iniciou. Retirar esses obstáculos e transformá-los em potenciais parceiros de uma grande reviravolta é questão de continuidade de iniciativas que, repito, apenas o Clube dos Prefeitos poderia empreender pelo simples fato de que o conjunto dos titulares dos paços municipais  restaura parte importante do volume de integralidade que o separatismo de meados do século passado impôs ao território regional.

Acompanhem o trajeto de uma caminhada rumo à recuperação econômica e social do Grande ABC. As sete pedras estão aí, traiçoeiras mas também desafiadoras e, por que não, consagradoras? 

1.LOGÍSTICA INTERNA.

2 IDENTIDADE FRAGMENTADA.

3. RODOANEL FECHADO.

4. DESINDUSTRIALIZAÇÃO.

5. HARMONIA FISCAL.

6. COMÉRCIO ELETRÔNICO.

7.EVASÃO DE CONSUMIDORES. 

 

 LOGÍSTICA INTERNA

A mobilidade interna é um convite ao estresse no Grande ABC, espécie de espelho de segunda linha da brilhante Capital. Como esperar algo aquém do inferno no uso de qualquer veículo motorizado depois dos estragos provocados pelo motor de arranque da separação administrativa dos sete municípios seguida da explosão do rodoviarismo e da verticalização de residências e escritórios?

A metropolização inserida no Grande ABC exigiria,  independentemente da   bobagem do separatismo do século passado, muita atenção dos urbanistas. A Capital vizinha é prova disso,  com ilhas de prosperidade econômica vulneráveis ao crescimento desordenado.

A diferença que faz os dois territórios acusarem pesos diferentes no caos da logística interna é que a possibilidade de mitigar os danos está na configuração territorial única da Capital, enquanto o Grande ABC exige cooperação e compartilhamento de iniciativas autônomas entre si. Juntar os cacos separatistas não é ação de fácil equação.

Somente uma força-tarefa regional acima de veleidades, privilégios e autarquismo poderia corrigir a rota. Nada entretanto de curto prazo e de estrada da felicidade. As sequelas estão por toda parte no mapa do inferno de um cotidiano desgastante.

 IDENTIDADE FRAGMENTADA 

Praticamente ninguém poderia imaginar que fosse possível ao Grande ABC atenuar o peso pesado imposto pelo Complexo de Gata Borralheira,  que consiste na enfermidade sociológica de olhar para a vizinha Capital e se sentir inferiorizada em tudo.  E que, por conta disso, reage internamente aumentando o grau de idiossincrasia à vizinhança local, antes integrantes de território único.

Mas eis o que era ruim se agrava ainda mais, num processo já em curso. O Complexo de Gata Borralheira amplia fronteira nacional,  agora tendo Brasília como farol político.

Ou seja: o Complexo de Gata Borralheira original sedimentaria nova dimensão. Deixaria de ser predominantemente de ordem histórica  econômica e cultural em relação a São Paulo, estendendo a bandeira de servilismo político à Capital federal.

Cada vez mais a política nacional em tempos de polarização domina o ambiente das redes sociais locais.  Gestões públicas locais não estão na agenda da cidadania.  A orfandade só perde fôlego na reta de chegada da corrida eleitoral.

A cooptação movida à tecnologia de bolso fragiliza sobremodo a possibilidade de mudanças da classe política e de instituições diversas de ganhar tração. A tendência de esfarelamento da cultura regional ainda não acenou para uma reversão consistente de valores. A tendência é piorar.

 RODOANEL FECHADO

Se o Rodoanel inconcluso fez ao longo de duas décadas um estrago monumental no Grande ABC, com dados estatísticos que acompanho há mais de duas décadas,   imagine agora  com o fechamento desse circuito de desafogo da logística externa nos municípios direta e indiretamente impactados? O tramo Sul, de Guarulhos e vizinhança,  está prestes  a fechar o cerco. Os resultados já aparecem. A perspectiva da obra já era suficiente para deslocar investimentos àquela região.  Agora, com as obras prestes a se encerrar, a aceleração ganha impulso.

Ganha tanto impulso que provavelmente nos próximos três anos, senão antes, a chamada Grande Norte, com Guarulhos e Mogi das Cruzes como cabeças,  ultrapassará o PIB do Grande ABC.  Um desempenho que a Grande Oeste,  de Osasco e Barueri como pontas de lança, já alcançou e alargou a cada nova temporada.

O resumo dessa ópera é que o Grande ABC de logística externa está estrangulado, entre o verde protegido da Serra do Mar e a metrópole sufocante.

Parece pouco provável que o Grande ABC encontre nos manuais clássicos de recuperação econômica qualquer saída que, a depender da fluidez logística, resistirá à concorrência mais apetrechada.

Já perdemos a condição de segundo maior PIB da Grande São Paulo para a Grande Oeste,  de Osasco e Barueri,  e garantidamente perderemos de terceiro para a região Norte, de Guarulhos. As regiões metropolitanas de Campinas, Sorocaba e São José dos Campos também superaram o Grande ABC.

A tendência é de alargamento de vantagens dessas áreas.  Uma reviravolta no placar vai depender de fatores múltiplos fora do radar de probabilidades. Estamos cercados de áreas metropolitanas mais ajustadas aos novos tempos.

 DESINDUSTRIALIZAÇÃO

O Grande ABC não pode mais ficar congelado,  vendo a banda da desindustrialização passar. É preciso reagir. Somente nas duas primeiras décadas deste século a participação relativa do PIB industrial da região caiu à metade ante o PIB Geral. São perdas reais e de participação diante das demais atividades. Frente à média estadual, a derrota é ainda mais fragorosa.

A tendência dessa marcha fúnebre não arrefece.  Ainda temos 25% de participação no conjunto do PIB Industrial no PIB Geral  do Grande ABC,  mas até que ponto estamos livres da média nacional de 10% do setor de transformação?

Podemos estar convergindo aos dados nacionais,  que é o pior dos mundos. Dependemos demais de duas estruturas que também estão no foco de competitividade internacional, os setores petroquímico e automotivo.

O mal maior é que faltam ações para entender o que restou de produção industrial e de que maneira será viável definir cronograma de resultados anuais que ofereçam a segurança de que a queda finalmente foi contida.

A indústria petroquímica gera pouco emprego, mas  os ramais químicos são mais capilares e versáteis. Segurar as pontas dessa atividade é o grande desafio. Já o setor automotivo está esquadrinhado na mundialização centralizadora de grandes corporações e fornecedores cada vez mais pressionados por tecnologia, processos e preços.  O horizonte regional é inquietante nas duas atividades que restaram como sustentáculo industrial.

 HARMONIA FISCAL

Talvez o grande pulo do gato estratégico da região seja encarar uma realidade histórica sem que isso signifique entregar a rapadura da resistência e da mitigação dos efeitos já conhecidos e consumados. Trata-se de encarar com arte, organização e planejamento a transposição inevitável em transição produtiva.

O que seria isso, afinal? Simples: apurar o foco no diversificadíssimo setor de serviços que a Capital tem de sobra e do qual o Grande ABC mantém-se distante. São inúmeras as atividades de serviços que poderiam ser rastreadas conjuntamente nos sete municípios e, daí,  partir para o abraço da atratividade inclusive sinérgica que reduziria o grau de resistência interna.

E tudo começaria com o que Celso Daniel ensaiou e ficou decepcionado. A uniformização das alíquotas em níveis competitivos e bem ajustados varreria o risco de infringência à lei de Responsabilidade fiscal. Essa equação é  compatível na medida que um mapeamento completo e baseado na integração regional colocaria freio de arrumação na situação atual de calamidade que gera guerra fiscal imprudente e autofágica diante de concorrentes externos à região.

Há potenciais e inúmeras possibilidades de o Grande ABC oferecer vantagens aos empreendimentos do setor de serviços na plataforma de ganhos de escala. Deixar de chorar o leite derramado da desindustrialização e adotar mecanismos que potencializem e enriquecem o setor de serviços,  que representa quase 70% do PIB regional,  parecem  tabelinha perfeita. 

 COMÉRCIO ELETRÔNICO

O bicho do comércio eletrônico cada vez mais próximo dos  consumidores já começou a pegar. Pior que isso é que não há estudos confiáveis com cardápio de danos que já estão nas praças,  especialmente o comércio tradicional. Depois do vendaval das grandes corporações de comércio que ocuparam a região nos anos 1990 e 2000,  agora chegam os centros logísticos de produtos populares, sobretudo asiáticos, e centenas de minicentros de distribuição.

Essa esquadrilha avassaladora deverá causar estrondoso desequilíbrio social de pequenos comércios que sobraram de enfrentamentos com o varejo tradicional e de grande porte movido por ganhos de escala junto aos fornecedores, além do coquetel de dispositivos de organização corporativa.

Ou seja: se a disparidade de forças imposta pelo grande e médio varejo já era um rombo na competitividade,  imaginem a sobrecarga com o aparato de negócios eletrônicos.

Essa equação não parece passar pela capacidade de solução regional, mas há alternativas para reduzir o impacto social. Medidas compensatórias que passem pelo crivo de  legislação federal já deveriam ter sido levadas à Brasília.  Há imensidão de possibilidades à vista. O encantamento com a chegada de centros logísticos aporta desconhecimento dos solavancos sociais no empreendedorismo privado  com impactos nos cofres públicos.

 EVASÃO DE CONSUMIDORES

Se o Grande ABC sofre com a fuga de cérebros rumo à Capital, se também perde consumidores para  Capital,  afinal, o que evitaria uma carga suplementar de evasão tanto de uma coisa quanto de outra coisa quando o BRT virar realidade e, mais tarde, o metrô meter a cara para engrossar o caldo?

Perceberam como o futuro do Grande ABC está enroscado, mesmo quando parece o contrário? Mas o jogo não está perdido.  Basta não subestimar a realidade para evitar que o futuro próximo e mesmo distante seja agravado. Isso significa que os efeitos colaterais do que desembarca em forma de modernidade de transportes devem ser neutralizados. É preciso debruçar sobre inevitáveis projeções. O futuro do comércio e dos serviços do Grande ABC passa pelo presente de diagnóstico que observe atentamente os desdobramentos do que se apresenta como bilhete premiado.

Nem tudo que brilha  no horizonte logístico se converte em ouro de competitividade. O que fazer com o BRT em primeiro lugar e com o anunciado metrô em seguida, sabendo-se como se sabe que a Capital do Estado é um centro de atração pantagruélico de ganhos sistêmicos?

Há experiência de casos internacionais que podem fornecer energia de adaptação à chegada de investimentos em transporte coletivo. O tempo urge a adequações.  O Rodoanel de prejuízos consideráveis é a prova viva de que nem sempre o que parece positivo, positivo é de fato.



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