Como se não bastasse a trajetória de declínio econômico do Grande ABC neste século, e particularmente de São Bernardo sobrerrodas, uma ameaça em forma de pá de cal de concorrência predatória tem-se manifestado com frequência tão constante quanto inquietante: os chineses seriam a salvação da lavoura no setor industrial, principalmente automotivo, a depender dos desejos inexplicáveis ou não da plataforma institucional mais respeitada no mundo do trabalho regional: o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, berço do presidente Lula da Silva.
Basta acompanhar as três análises que se seguem (outras foram preteridas por questões espaciais) para compreender um impasse ainda não captado pelas lideranças sindicais, ou captado com tamanha coerência doutrinária a ponto de o que parece incoerência ganha a forma de estratégia que vai muito além da Economia propriamente dita, de forte alinhamento entre os dois governos nacionais em nome de uma geopolítica pragmática que se cristaliza em muitas áreas, além do setor automotivo.
O quinto capítulo desta série reúne um macrotexto que é resultado de três textos sintonizados cronologicamente com a temática industrial do Grande ABC, particularmente das automotivas e autopeças.
Foi em 5 de março de 2024 que alertei sobre a situação. Sob o título “O que os metalúrgicos foram fazer na China?”, escrevi o que se segue:
A informação passada ontem pelo Diário do Grande ABC dando conta de que uma missão de sindicalistas metalúrgicos de São Bernardo está na China para trazer empresas a São Bernardo, entre outras tarefas, tem o mesmo significado de a Associação dos Alcoólicos Anônimos programar para uma fazenda-alambique a próxima convenção terapêutica. Não dá certo. Pode apostar.
Trazer empresas chinesas para São Bernardo tem o mesmo sentido de entregar a chave de uma Ferrari a um meliante profissional. Não vai dar certo. Ou então sugerir que o cardápio consagrado de um restaurante badalado como meca da feijoada possa ser substituído do dia para a noite pela culinária italiana. A clientela tradicional vai sumir e a potencial nova vai demorar a entender o que se passa. Não vai dar certo, também.
Não existe nexo na proposta dos sindicalistas, exceto se o Brasil do governo Lula da Silva cada vez mais afinado com os chineses fizer um acordo de cooperação e o Grande ABC se torne enclave de políticas públicas daquele capitalismo de Estado, em detrimento das demais regiões do Brasil. Uma guerra fiscal de olhos rasgados e coração embrutecido. Ou seja: teríamos fábricas Made in China na região. Quem acredita nisso?
FATORES DETERMINANTES
Até que uma fabriquinha em forma de boa-vizinhança não estaria descartada, seja de veículo elétrico, seja de bateria, mas nada que resolva. Mais que isso: só provocaria encrenca.
Mesmo considerando que o Brasil não é lá essas coisas em matéria de capitalismo produtivo, porque o peso fiscal do Estado reduz o potencial exatamente porque obriga as empresas a contornarem os obstáculos à rentabilidade e escala dos negócios, mesmo se levando isso em conta, o capitalismo verde e amarelo tem camadas distintas do que os chineses impõem cada vez ao mundo.
Os chineses utilizam o fator mão de obra barata e farta e Estado interventor para avançar em tecnologia da manufatura. Tanto que veículos elétricos estão fora do mapa dos norte-americanos, castrados por regime aduaneiro dos democratas de Joe Biden. Sem contar que também na Europa provocam calafrios. A dinâmica civilizatória sofreria corrosão ante a avalanche invasiva. Os chineses têm passivo social elevadíssimo que, para ser reduzido, afeta outras nações. Não à toa exportações dominam o mercado automobilístico na América do Sul. E crescem cada vez mais.
MUITO DESPREPARO
Como introduzir essa intervenção em favor da região se o próprio governo Lula da Silva está abrindo as pernas e muito mais aos chineses que arremataram o terreno abandonado pela Ford na Bahia e constroem uma megafábrica de veículos elétrico, da BYD, que promete arrasar com a concorrência nacional? Ainda mais que o governo oferece todas as vantagens de guerra fiscal adicional no Nordeste e Centro-Oeste, em detrimento, entre outros lugares, do próprio ABC Paulista, outrora Grande ABC.
Os sindicalistas da região devem estar mal-informados ou surdos quando não cegos, para não dizer alienados, ao propagarem investimentos para a região, dando à notícia ares transformadores. Uma região que, como bem cunhou o médico e dirigente empresarial Fausto Cestari, contabiliza o Custo ABC agregado ao Custo Brasil e por essas e outras não aguenta uma concorrência nos moldes mais civilizados possíveis, quanto mais de um regime político-econômico pouco transparente.
Sindicalistas viajantes não se deram conta de que passam pelo ridículo ao informarem tamanha bobagem porque, ainda salvo um regime político e econômico que não se confundiria com o que praticam os chineses, a competitividade regional é uma lástima frente a concorrentes nacionais, quanto mais a capital estrangeiro que ignora regras já consagradas no campo trabalhista e também social.
NEGANDO O PASSADO
Como é possível acreditar que a missão dos sindicalistas seja mesmo alguma coisa que não beire à loucura e a negação de tanto que já pintaram e bordaram na região quando embates entre capital e trabalho, além de benefícios de classe, também causaram perdas ao conjunto da sociedade?
Ou alguém vai dizer que o movimento sindical e seus intensos ataques ao capitalismo internacional sediado no País, principalmente, porque as montadoras de veículos eram o alvo principal, não contribuíram para liquidar com pequenos e médios negócios industriais familiares? Quem conhece a história da região e não integra o time de cínicos sabe disso. Tudo foi colocado e empastelado no mesmo pacote de exigências trabalhistas.
Basta recordar um dos muitos casos para que leitores menos atentos entendam o conjunto histórico de dilacerações empresariais. Sob a liderança de Claudio Rubens Pereira num regime de comunicação via faxes e outros apetrechos rudimentares para os dias de hoje, foi criada a Associação das Pequenas e Médias Empresas, em Santo André. Anapemei, como era conhecida.
Chegou-se a contar com quase 200 empresas associados no período mais bravio das greves dos metalúrgicos. Em poucos anos, não restava uma empresa associada sequer, porque para ser associada era preciso existir. E todas foram extintas ou se escafederam. Fernando Henrique Cardoso colaborou muito durante oito anos de privilégios às montadoras e impiedosa abertura econômica às pequenas e médias autopeças.
ATIVOS E PASSIVOS
Voltando à ação sindical, a pauta de reivindicações às montadoras e grandes autopeças era furiosamente repassada a todas as empresas do setor, independentemente do tamanho. O custo da mão de obra para as grandes empresas não passava de um quinto do impactado às pequenas, por conta de escala e faturamento. Quem não se mandou da região pereceu na região.
A cegueira analítica de tratar o movimento sindical como pérola de humanismo e compreensão é tão condenável quando negar o poder de transformação dos trabalhadores nos chãos de fábricas. Há um meio termo de razoabilidade que não pode ser descartado. E no frigir dos ovos de um balanço histórico, os danos são maiores que os ganhos porque a concorrência fora da região aproveitou-se do banzé para fazer a festa.
É assim historicamente no mundo que o capitalismo se vira nos trinta para manter-se competitivo. Os chineses são competitivos com ações muito mais viscerais. A costa larga do Estado centralizador garante a carnificina.
TERRITÓRIO HOSTIL
O Grande ABC é visto como território hostil ao capital entre outras razões porque se tornou sinônimo de ações claramente desestabilizadoras ao Desenvolvimento Econômico de regime capitalista.
Tanto é verdade que os números estão aí. Contamos com apenas 10% do PIB Nacional Automotivo e internamente, embora a atividade seja predominante, as perdas efetivas e relativas fragilizaram os cofres públicos e esgotaram o processo então invejável de mobilidade social. Não estamos descendo ladeira abaixo do PIB per capita estadual por acaso.
Produzimos hoje muito mais pobres e miseráveis do que riquezas. E olhem que pobres e miseráveis só não são em maiores contingentes porque há Bolsa Família a socorrê-los.
MUNDO-CÃO
A comitiva de sindicalistas à China é tão esdrúxula que possivelmente eles seriam tratados como terroristas de verdade, não aqueles baderneiros do Oito de Janeiro, se levassem debaixo do braço pautas de negociações comumente impostas às empresas que restaram na região, notadamente em São Bernardo e, particularmente, do setor automotivo.
Como imaginar, portanto, capacidade de sedução à vinda de empresas asiáticas ou conglomerados internacionais com raízes asiáticas se o mundo-cão do capitalismo chinês não resiste a um toque de civilização do Ocidente?
O que temos de fato e para valer é uma Operação Camicase porque, em sentido contrário, o presidente Lula da Silva, comandante do Sindicato dos Metalúrgicos antes que os anos 1980 chegassem, distribuí benefícios fiscais, quando não políticos e tudo o mais, aos investidores chineses da BYD.
Os sindicalistas da região deveriam estar preocupadíssimos com os estragos que vão impactar a região quando do elétricos híbridos ou não tomarem conta de nossas ruas e estradas, como se insinua.
A incorporação dessa nova tecnologia obrigará profundos cortes de custos nas redes de autopeças. Os efeitos serão devastadores. Bem diferente do que teremos na Bahia, por exemplo, endereço no qual não existe base automotiva que impeça regalias e privilégios sem causar complicações às empresas já instaladas.
A região paga o preço do pioneirismo de instalação e das guerrilhas entre capital e trabalho, sempre com o Estado guloso a usufruir da divisão com carga de impostos extorsiva no setor. Justamente como senha para vender facilidades como a chamada Nova Política Industrial. Esse filme é antigo, desgastado e só engana mesmo os ruins da cabeça e doentes dos pés.
MAIS MARÇO DE 2024
Poucos dias depois, voltei a escrever sobre os chineses e os metalúrgicos do Grande ABC. Foi em 26 de março, sob o título “Região não é a China que possa interessar à China”. Leiam:
Como vender o Grande ABC aos chineses, como pretende o sindicalista de São Bernardo Wellington Damasceno, se os chineses são bons de negócios e a competitividade dos negócios chineses é o inverso do que temos no Grande ABC?
A China que desembarcaria na região não seria a China que o sindicalista sugere, porque os chineses dos negócios chineses são espertos e opressivos no mercado de trabalho. E o mercado de trabalho industrial da região, do qual os sindicalistas tanto se orgulham, embora já não seja o mesmo de outros tempos, é um mercado de trabalho do qual os chineses fogem como o diabo da cruz.
Por isso, essa é a maior contradição da visita que uma delegação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC fez ao centro da terra do capitalismo de Estado e de ditadura política.
Isso quer dizer que a viagem dos metalúrgicos à China é uma grande bobagem? Não necessariamente, porque aprender com modelos diferentes, mesmo que antagônicos, sempre tem o lado pedagógico. Inclusive de cair na real.
GATO POR LEBRE
O que não se pode é vender gato por lebre. Ou imaginar, como imagina o sindicalista entrevistado pelo Diário do Grande ABC, que é possível vender uma região que o próprio sindicalista desconhece como mapa de improdutividades industriais, de ajustes históricos que ainda estão longe de se encerrar.
Como fazemos sempre que a oportunidade aparece em forma de contraditório abelhudo, ingressamos no campo de perguntas e respostas do Diário do Grande ABC. A entrevista com Wellington Damasceno será integralmente reproduzida abaixo.
A diferença em relação ao que o Diário do Grande ABC publicou é que entramos na parada. Metemos o dedo com contraditórios que entendemos se fazerem necessários. Tanto são necessários que o apontamento dessa contradição de anunciar a tentativa de vender o Grande ABC para os chineses sem entender ou dizer que a proposta tem todo o jeito semântico de trapaça, no bom sentido, é coisa nossa, ou seja, deste jornalista.
TÍTULO EMBLEMÁTICO
O título da entrevista publicada no Diário do Grande ABC de ontem reproduz o pensamento e as declarações do entrevistado. “Fomos à China para vender o Grande ABC” é o arcabouço conceitual do que se verifica no conjunto ou no tom da respostas de Wellington Damasceno. Uma pretensão sem tamanho. Um entusiasmo juvenil. Um estrabismo econômico. Tudo que se pode elencar como voluntarismo ilusório.
É claro que tudo isso tem validade sob o ponto de vista de vendedor, porque é disso que se trata, mas há limites. O Código de Defesa do Consumidor de Informações precisaria ser acionado. E é isso que fazemos. CapitalSocial não adotou o mote “Ombudsman do Grande ABC” ou “Ombudsman do ABC Paulista” no sentido puramente propagandístico como, até prova em contrário, a viagem dos metalúrgicos à China. Trata-se de uma filosofia editorial. Seguem as perguntas, as respostas e os contraditórios da entrevista do Diário do Grande ABC.
DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Uma rodada de negócios envolvendo empresas chinesas que têm intenção de investir no Brasil, provavelmente em maio, por enquanto é o principal resultado da viagem que uma delegação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC fez à China. O grupo visitou indústrias automobilísticas, de semicondutores, entidades sindicais, de ensino e banco dos Brics. Segundo Wellington Damasceno, diretor administrativo do sindicato, um dos objetivos foi apresentar o Grande ABC para os chineses e mostrar que a região tem potencial para receber investimentos. Além de conhecer, na prática, os efeitos da eletrificação na produção e nas relações de trabalho. Leia a entrevista:
DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Uma delegação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC acaba de retornar da China. O sr. consegue fazer um balanço dessa viagem?
WELLINGTON DAMASCENO -- Foi uma imersão espetacular. Viver a China é algo que não conseguimos explicar. É outra dimensão. Eles, em muito pouco tempo, conseguiram dar saltos tecnológicos e de qualidade de vida que a gente não tem dimensão nem parâmetro para comparar. Quando olhamos para as agendas práticas, olhar a indústria, olhar o conglomerado de investimentos, a gente percebe como eles associaram o crescimento do país com o desenvolvimento tecnológico e industrial. Além disso, o governo apoia muito o desenvolvimento das empresas, mas as contrapartidas são muito claras. A empresa precisa fazer a sua parte, ter preço acessível, contribuir com o desenvolvimento local – da cidade ou da região –, exportar e ganhar mercado e precisa desenvolver tecnologia para ser pioneira ou ter liderança em determinada área. Isso para nós choca por um lado, pois vemos que eles estão anos-luz à nossa frente. Por outro, serve de inspiração em muitas áreas em que o Brasil tem condições também de disputar o protagonismo. O que precisamos é organizar as ideias, políticas públicas e não ter medo de fazer. Nós conseguimos projetar o Grande ABC para além da indústria, além de ter uma imersão de como a China conseguiu se desenvolver do ponto de vista social, atrelado ao desenvolvimento econômico e tecnológico. E o crucial é como o desenho da política se concretiza. O regime é diferente do nosso, mas podemos fazer muita coisa. Nos inspira a dialogar com quem estiver disposto e fazer outros modelos de governança para ver acontecer também no Brasil.
CAPITALSOCIAL – As declarações do dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC é típica de deslumbramento que desconsidera todas as condicionantes entre uma potência mundial numa geopolítica cada vez mais asfixiante aos países de terceiro escalão. O capitalismo de Estado dos chineses é imposto a ferro e fogo tendo como plataforma de competividade não apenas a modernidade dos investimentos privados e o suporte orçamentário do Estado, mas um regime totalitário que não guarda qualquer relação com a realidade nacional, por mais que os abusos presentes sejam a antítese da democracia desejada. Transpor para a região a síntese do desenvolvimento econômico chinês é algo tão improvável quanto pretender esconder uma bola de futebol numa garrafa de refrigerante. No caso específico das pautas e ações históricas dos metalúrgicos da região, nem pensar. A intervenção do Estado nacional fundamentada numa carga tributária inimiga da competição colocou a indústria há muito tempo no acostamento de competitividade. As chamadas conquistas históricas dos sindicalistas da região, obtidas a ferro e fogo de combatividade, não cabem nos investimentos chineses pretensamente na região. Exceto se forem permitidas iniquidades trabalhistas dos asiáticos. Há uma incompatibilidade estonteante entre o modelo chinês aplicado na China e o modelo chinês que se pretenderia no Grande ABC de embates sindicais históricos. Algo que não passa pela cabeça da ditadura asiática, exceto em condições diplomáticas e ideológicas muito especiais.
DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Qual foi o resultado prático dessa viagem?
WELLINGTON DAMASCENO -- A primeira coisa é que nós fomos para conhecer o processo de eletrificação do setor automotivo. Temos buscado negociar tanto políticas públicas no Brasil quanto acordos, como foi com a Volkswagen para a produção de carros híbridos. A gente tem discutido isso, mas não sabe exatamente o que é. O impacto dessa eletrificação nos empregos, na qualificação profissional. Então fomos onde hoje é o principal polo de produção, de tecnologia, que lidera no mundo na eletrônica embarcada ligada ao setor automotivo. O que eles estão fazendo? Como estão fazendo? Como isso afeta os trabalhadores? Passado isso, fomos em empresas que já vieram conversar com o sindicato. E em algumas que não vieram, mas que têm intenção de vir para o Brasil. Nós fomos ‘vender’ o Grande ABC. Essa foi uma das nossas tarefas. E nós deixamos claro que o sindicato não é um bicho-papão para as empresas, pelo contrário, nós somos um sindicato de luta, mas um sindicato propositivo, que busca soluções conjuntas, que negocia diretamente com entes governamentais. E nós fomos além, fomos conversar com conglomerados que não são do setor metalúrgico/automotivo, mas que, de alguma maneira, têm interesse de entrar e fazer parcerias em obras no Brasil. Isso também é importante para a nossa região, como conseguimos atrelar as necessidades de investimento em infraestrutura com essa visibilidade que o Brasil ganhou novamente e com a China querendo parceiros comerciais para fazer investimentos. Hoje, a gente não está sabendo vender o Grande ABC, que já foi pujante, mas não está aparecendo quando se fala do Brasil. O Estado de São Paulo tem uma cartilha, que foi encaminhada à China, que fala muito de setor de suco de laranja, um pouco do setor sucroenergético e da produção de commodities. Mas não tem o Grande ABC como uma região de logística privilegiada, mão de obra qualificada, do lado do maior mercado consumidor do País, com o quarto maior PIB do Brasil. Ninguém está falando disso. Então nós fomos falar. Nós somos sindicato, não temos governança sobre as cidades, mas a gente dialoga e estamos tentando viabilizar a chegada de empresas e de algum tipo de investimento aqui.
CAPITALSOCIAL -- O sindicalista confessa que foi à China para vender o Grande ABC, mas não sabe o que fazer para vender o Grande ABC entre outras razões uma das quais essencial, sobre a qual não faz qualquer menção: o Grande ABC é um tremendo abacaxi industrial, de baixíssima atratividade. Pior que isso: se pretende vender o Grande ABC aos chineses, precisa superar um obstáculo desafiador: os chineses vão manter os olhos abertos e a atenção máxima para não caírem no conto do vigário. Como assim? Ora, logística privilegiada, mão de obra qualificada e quarto mercado consumidor do País são cantilenas mais que surradas e contestadas. Sobretudo em logística, somos para valer um dos piores endereços metropolitanas do País. A derrocada industrial neste século, mesmo com o sindicalismo regional de baixa temperatura, é prova disso. O traçado do Rodoanel virou rota de fuga ao levar muito do que tínhamos de plantas industriais. E a mão de obra qualificada é cada vez mais democraticamente espalhada, porque a tecnologia bem treinada torna os trabalhadores muito mais próximos da qualificação necessária, independentemente de onde atuam. Os chineses que o digam, não é verdade? Ou os chineses do campo que invadiram as cidades não são trabalhadores industriais cada vez mais explorados com remuneração baixas e produtividade escravizante? Estariam os sindicalistas da região dispostos a seguir o mesmo receituário ou os chineses viriam para a região sem levar o modelo chinês em consideração? Um modelo chinês mais apropriado a Estados menos suscetíveis a demandas sindicais, como, por exemplo, a BYD na Bahia. Aliás, seria bastante produtivo a mesma delegação sindical que esteve na China dar uma espiadinha constante, quando não visitas esporádicas, para entender o modelo da BYD em Camaçari, com todas as benesses do governo federal. Não custa entender como se fabrica o modelo chinês de produtividade, correlacionando-os ao modelo verde e amarelo que maltrata os investimentos com elevadíssimos impostos.
DIÁRIO DO GRANDE ABC -- O que o sindicato trouxe de prático da China?
WELLINGTON DAMASCENO -- De prático, apenas um evento que marca os 50 anos de relações Brasil e China. A gente combinou tanto com a Embaixada do Brasil na China quanto com a Embaixada da China no Brasil e com algumas empresas de fazer um evento no sindicato. Queremos aproveitar para uma rodada de negócios. Trazer empresas chinesas que querem se instalar aqui e que nós tivemos contato e empresas brasileiras que, inclusive, podem receber injeções de recursos de capital chinês para se levantar.
DIARIO DO GRANDE ABC -- De forma prática alguma empresa sinalizou (que vem para o Grande ABC)?
WELLINGTON DAMASCENO -- Ainda não. Isso nós não temos. E se eu tivesse não falaria nesse momento. Ia guardar, porque o jogo no Brasil está muito pesado. Empresas que conversam com a gente com interesse de se instalar no Grande ABC estão sendo assediadas por outras regiões do País. E com vantagens que nós não temos. Porque as conversas que tivemos com o governo do Estado não avançam no sentido de a gente voltar a ser um polo (industrial), ou ter o apoio do governo do Estado, como outros Estados estão se movimentando. Então, por isso, a gente está sendo um pouquinho mais retraído. No começo, anunciávamos os memorandos de intenção (de instalação de fábricas na região), depois percebemos que outros estavam procurando essas mesmas empresas. Então abrimos o olho e nos tornamos mais pragmáticos. Mas saímos muito animados.
CAPITALSOCIAL – Se forem considerados fatores exclusivamente econômicos, no sentido mais amplo possível da modalidade, o Grande ABC vai ficar a ver navios de desinteresse prático dos chineses em investimentos. Exceto em casos muito específicos e mesmo assim dentro de uma perspectiva de bom relacionamento com o governo federal que tem os asiáticos como parceiros de jornada muito além do campo industrial. O Grande ABC está no fim da fila de atratividade de empresas nacionais, quanto mais de plantas internacionais que não levem em conta privilégios tributários. Caso da BYD baiana.
DIÁRIO DO GRANDE ABC -- É perceptível que há uma mudança de comportamento em relação ao sindicalismo, se comparado com décadas atrás. Como o sr. vê isso?
WELLINGTON DAMASCENO -- São momentos distintos. Nas décadas de 1970 e 1980, a briga era para alguém se sentar com a gente para negociar as questões dos trabalhadores, as exigências, a questão salarial. Tínhamos de judicializar ou fazer greve para que alguém ouvisse. Ninguém virava carro porque gostava ou porque dava uma foto bonita no jornal. É porque estávamos falando com as paredes. Hoje não. Nós aprendemos muito a dialogar. Dialogar com o empresário, com o poder público, com outros países. No fim das contas, o que a gente quer é que o Grande ABC se desenvolva. Se a região não for viável, as empresas saem, os empregos saem e a região acaba. Aqui é o lugar em que a gente vive. O sindicato só existe porque tem empresas aqui, porque tem um parque (fabril) que funciona, que tem uma rede de universidades que dá, inclusive, condições de fazer o desenvolvimento tecnológico. Se perdemos isso, o que vai ser da região? Esse é o avanço dessa concepção do sindicato. No dia que o presidente Lula foi na Volks (em fevereiro), havia dois representantes da empresa no palco, com fala, e dois representantes do sindicato. E se contar do lado do governo, havia dois ex-presidentes do Sindicato dos Metalúrgicos (Lula e o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho). Isso faz parte do amadurecimento do relacionamento com a Volks. A empresa tem claro que ela tem alguns interesses e nós temos outros. E que em certas medidas eles convergem. Mas diariamente tem discussões pesadas e duras para garantir que o trabalhador tenha melhores condições e a fábrica tenha maior viabilidade nos negócios. A gente sabe que em alguns momentos somos muito antagônicos, mas vamos discutir o que podemos fazer na convergência. O resto a gente vai brigar. Quando os dois lados entendem isso, a relação flui.
CAPITALSOCIAL – Uma montadora do tamanho e da importância da Volkswagen dificilmente deixaria o Grande ABC, mas a aproximação entre capital e trabalho e também do Estado em forma de governo deve ser mantida permanentemente como um esforço de compromissos que superem os desafios do mundo dos negócios. A Volkswagen de São Bernardo já deixou São Bernardo em porções significativas, com divisões de produção e enxugamento da máquina de produção. Milhares de trabalhadores tiveram o emprego destruído em nome da atualização tecnológica e da competitividade. Essa é a regra do jogo do capitalismo. O outro lado da moeda prática é o estatismo perdulário e corrupto. A Volkswagen não sairia de São Bernardo mais do que já saiu. Diferentemente da Ford, por exemplo, que foi embora integralmente.
DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Com relação à fuga de empresas da região, o que é possível fazer para que elas permaneçam no Grande ABC?
WELLINGTON DAMASCENO -- Aí tem uma questão das políticas públicas. Porque aqui é uma desarticulação enorme entre as três esferas de poder. O município normalmente olha e diz que não tem o que fazer. O governo do Estado, estrategicamente, não tem um olhar voltado à indústria e, na maioria das vezes, não entra na discussão. E no governo federal, tivemos o azar de termos (Michel) Temer e (Jair) Bolsonaro, que foram tragédias para o Brasil. No fechamento da Ford, procuramos o governo Bolsonaro. Pediram para o (Hamilton) Mourão (vice-presidente) receber a gente. Falamos que estavam envolvidos 25 mil empregos diretos e indiretos, que era uma fábrica histórica. Ele falou que esse era um problema do mercado, que o governo não poderia se meter. Se não era competitiva, tinha de fechar mesmo. Isso é um absurdo, do ponto de vista que era uma empresa que recebeu incentivos dos mais diversos ao longo dos anos, que tinha uma cadeia estruturada de fornecedores, teve empresa que fechou as portas. O sindicato pode provocar. Provocar governo, empresas, fazer rodadas de negócios. Articular com o Consórcio (Intermunicipal do Grande ABC), com as universidades, com o Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) para melhorar o ambiente. Agora, os governos precisam ter um alinhamento melhor. O governo federal precisa garantir um ambiente de competitividade semelhante, não pode haver desequilíbrios na relação de disputa das empresas no mercado. O governo de São Paulo, precisa ter um protagonismo. Não pode assistir a outros Estados tomando a dianteira, sendo ousados na estratégia de buscar empresas e achar normal. Na questão industrial, o governo de São Paulo é omisso. E as cidades da região deveriam fortalecer mais a governança do Consórcio. Infelizmente, cidades como São Bernardo se omitem na questão do fechamento de empresas. Tem pouco que se fazer, mas poderia pautar a discussão no Consórcio, chamar outros atores e ser mais proativo, liderar discussão, uma frente contra o fechamento. Tem de ser propositivo. As cidades do Grande ABC não podem querer resolver problemas isoladamente, que é o que tem sido feito nos últimos anos. Tem cidades que deixaram o grupo. Enquanto o Consórcio do Nordeste está nadando de braçada, com articulação muito bem feita. Um Estado não disputa com o outro e todos estão crescendo. O Grande ABC precisa ter a mesma governança. Os prefeitos precisam parar de buscar o protagonismo para si, o marketing pessoal e olhar para o que será deixado para a região para as próximas décadas. O Grande ABC não pode ser apenas sete cidades. Tem de ser visto como uma grande cidade que tem sete prefeitos. A região precisa voltar a buscar o protagonismo que sempre teve. E isso se dá nas relações, nas articulações, do ponto de vista político e também do ponto de vista prático. Os prefeitos precisam entender que se o Grande ABC vai bem, a cidade que eles governam também vai bem. Se uma cidade perde uma empresa, a outra sofre.
CAPITALSOCIAL – Basta a ressalva de que o sindicalista não faz menção alguma à maior catástrofe da história da região, no caso os dois anos de recessão do governo de Dilma Rousseff, quando foram para o beleleu 22% do PIB local, para que as declarações se percam na poeira do fanatismo ideológico e partidário. Atribuir a terceiros a desindustrialização da região, notadamente aos seis anos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, é uma agressão ao discernimento. O Grande ABC é decadente no setor industrial há três décadas, pelo menos. E tudo que o sindicalista enuncia agora em forma de ações coordenadas integra o receituário desta revista digital, primeira publicação do País a apontar, já em março de 1990, o processo de desindustrialização e, ao longo dos anos, a fragilidade institucional de organizações públicas e privadas locais. Até parece que o sindicalista consultou as páginas digitais desta publicação para elaborar um conjunto de medidas que jamais foram postas em prática e que provavelmente não serão. Os chineses aos quais fizeram a visita dita espetacular ficariam horrorizados se conhecessem a realidade institucional da região, uma terra em estado catatônico incapaz de reagir, por exemplo, à catástrofe de Dilma Rousseff. O que esperar de diferente se o próprio entrevistado sequer fez qualquer menção àquele bombardeiro?
AGOSTO DE 2025
Para completar, entre tantas outras matérias, vejam o texto de 6 de agosto de 2025 sob o título “Chineses aparecem no pedaço mais uma vez”:
Quando as informações repassadas à mídia não são informações completas, muito longe disso, sempre há o risco de tentar metabolizá-las em forma de análise. O anúncio de que uma delegação de representantes de uma cidade da China esteve ontem com o prefeito Marcelo Lima e o secretário de Desenvolvimento Econômico Rafael Demarchi parece suficiente para assegurar muita preocupação. Tanto Marcelo quanto Rafael não são do ramo econômico, mas têm uma vocação ao marketing de quermesse, ou seja, de muito barulho.
Consumi a reportagem do Diário do Grande ABC e também do Reporter Diário e as comparei com a reportagem de página inteira do jornal Valor Econômico sobre os percalços industriais da China, publicada na edição de ontem e assinada por enviados especiais do Financial Times. Não tenho como evitar esse imbricamento. Os chineses estão desesperados para botar o bloco de produção em outros países e começam a sofrer cada vez mais pressões dos concorrentes.
Está na reportagem do Financial Times: “O excesso de capacidade também se tornou um desafio global para os parceiros comerciais que temem o outro choque da China semelhante ao aumento das exportações chinesas no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Os EUA e a UE além de grandes países em desenvolvimento estão rapidamente erguendo barreiras comerciais para proteger suas indústrias avançadas de uma enxurrada de produtos chineses de baixo custo”.
JOGO PESADO
Duvido que tanto o prefeito quanto o secretário, e mesmo o dirigente Mauro Miaguti, do Ciesp, que acompanhou o encontro, tenham lido a reportagem do Financial Times antes da reunião de ontem, ou mesmo depois.
Depreendo da reportagem que São Bernardo não se preparou tecnicamente às visitas. As declarações do prefeito e do secretário (que reproduzo logo abaixo, nas matérias publicadas no Diário do Grande ABC e no Repórter Diário) são estritamente protocolares.
Reproduzo em seguida mais um trecho da reportagem do Valor Econômico de ontem: “A dependência da China em investimentos na manufatura tornou-se ainda mais urgente à medida que sua capacidade excedente e a demanda doméstica fraca empurram o país para um dos períodos mais longos de pressão deflacionária desde os anos 90. A queda dos preços prejudica a lucratividade das empresas e os balanços dos bancos, além de desestimular novos investimentos” --escreveu o Financial Times.
A visita dos chineses evoca preocupação e dúvidas, além de certo alarmismo. Existe incompatibilidade total de acoplagem do modelo asiático de baixo custo da mão de obra e o, apesar de decadente, padrão salarial e de conquistas trabalhistas dos metalúrgicos e mesmo de outros setores na região.
Como alinhar os ponteiros de competitividade diante do desafio de invasão do território regional sem causar reboliço diabólico nos valores despendidos com os trabalhadores, sem contar a quase sentença de morte a novos investimentos industriais diante da concorrência nacional muito mais aparelhada? Mesmo que o prefeito Marcelo Lima tenha a cobertura de algumas estrelas petistas da região em Brasília. Presente de grego também faz parte de negócios.
TERCEIRA INVESTIDA
Não custa lembrar que a reunião de ontem no Paço Municipal marca a terceira vez nesta temporada em que os chineses constam do noticiário regional. A primeira vez foi uma visita de lideranças sindicais de São Bernardo à China, em busca de investimentos metalúrgicos, em frontal conflito com os contrastes básicos que acabei de mencionar acima. Depois, uma delegação chineses aportou em Mauá e prometeu investimentos.
O amadorismo que engolfa a Administração de Marcelo Lima no setor econômico colocará São Bernardo cada vez mais no acostamento de competitividade. Ainda outro dia mostrei que São Bernardo, após 30 anos, passou a ocupar a última posição no quesito de PIB de Consumo por habitante entre as 20 maiores cidades do Estado de São Paulo. Fosse a conta feita sem considerar o tamanho econômico, provavelmente teria desabado dezenas de posições no ranking estadual. No PIB Tradicional também por habitante, semelhante ao PIB de Consumo, o histórico é igualmente dilacerante.
Não vou ficar aqui no meu canto a citar exemplos de como dar produtividade a eventuais encontros com supostos investidores chineses. Seria mais lógico, inteligente e prospectivo que o prefeito de São Bernardo contratasse uma consultoria especializada. É assim que gestores públicos resolutivos agem. Não é o acompanhamento de um dirigente do Ciesp sempre preocupado em agradar que estenderá o horizonte além do imediatismo de sempre.