Saiu na semana passada um ranking que não abrange a totalidade do universo municipalista e tampouco serve diretamente como mapeamento econômico de causa e efeito, mas juntando as peças básicas a conclusão é inevitável: a Santo André deixada por Paulinho Serra ( e antecessores) para Gilvan Ferreira é uma associação perfeita do que poderia ser chamada de armadilha, para não dizer herança maldita.
O Campeonato Brasileiro de Qualidade de Vida, que envolve os mais de cinco mil municípios do País, instala Santo André na incômoda 398 posição, enquanto São Bernardo (37ª) e São Caetano (40ª) estão em situação mais confortável. Santo André perde até mesmo na contagem geral para Diadema (254ª) . Ribeirão Pires (797ª) e Rio Grande da Serra (1.651) ocupam posições mais distantes.
Dividido em três macroindicadores que se desdobram em 57 indicadores, o Campeonato Brasileiro de Qualidade de Vida expressa em larga escala mas não totalmente a atuação do Poder Executivo Municipal. Mas não é diretamente relacionado ao comportamento econômico dos municípios. Diretamente significa que não entram no balanço individual e geral do Campeonato Brasileiro de Qualidade de Vida dados econômicos que possam dar mesmo que parcialmente a situação de cada Município. Pesam mesmo e preponderantemente vetores de cunho social e ambiental, como explicita a própria denominação.
ECONOMIA ESCONDIDA
Mas não há como evitar uma conclusão lógica: grande parte das variáveis que resultam no ranking nacional está ligadíssima ao Desenvolvimento Econômico. Há correlação, por exemplo, entre o PIB per capita e os resultados sociais e ambientais, mas não necessariamente sincronizados. O que isso significa? Municípios em ascensão econômica podem ter PIB per capita inferior a municípios decadentes. E mesmo municípios de PIB per capita semelhante podem gozar de classificação mais avançada, por conta de fatores específicos. A dinâmica econômica e social tem intima correlação, mas comporta assimetrias. Principalmente porque é movida vagarosamente pelo marcador do tempo.
Um exemplo no Grande ABC talvez seja pedagógico. O PIB per capita de Santo André ocupa a posição 1.450 no ranking nacional, enquanto São Bernardo ocupa a posição 371. A diferença em valores monetários é bastante relevante. São Bernardo conta com PIB per capita de R$ 85.556,02 e Santo André com R$ 47.223,89, dados de 2023. No Campeonato Brasileiro de Qualidade de Vida, São Bernardo ocupa a posição 37 e Santo André a posição 398. A diferença é elástica. Neste século, São Bernardo e Santo André sofreram rebaixamentos semelhantes no PIB Geral. Mas São Bernardo sofreu menos desgaste que a vizinha no Campeonato Brasileiro de Qualidade de Vida recentemente criado.
E OS MUNICÍPIOS?
Apesar das dificuldades de sustentar responsabilidade exclusiva dos prefeitos nos resultados do Campeonato Brasileiro de Qualidade de Vida, por conta da multiplicidade de quesitos em forma de indicadores, não há como resistir à focalização dos dados na esfera local. Principalmente porque o agente oculto de todo esse emaranhado de dados é predominantemente o Desenvolvimento Econômico, que, também relativamente ao ambiente macroeconômico, requer extremos cuidados dos agentes públicos municipais.
CapitalSocial vai voltar nos próximos dias com uma edição complementar ao incluir a tentativa de definir as camadas de indicadores mais próximas de gestores públicos municipais.
TRÊS DIMENSÕES
Para entender o Campeonato Brasileiro de Qualidade de Vida (IPS – Índice de Progreso Social) provavelmente a melhor formula é considerar as três dimensões como uma competição de três turnos. Ao final das três etapas, a classificação é consequência das melhores colocações em cada turno, no caso, as dimensões.
Na Dimensão de Necessidades Humanas Básicas, os melhores resultados, quando se somam as colocações de 12 indicadores divididos em quatro modalidades, é São Caetano com 4.074 pontos. E o pior é Rio Grande da Serra com 11.476. Nessa modalidade. São Bernardo soma 6.032 pontos, Santo André 8.293, Diadema 6.681. Mauá 8.992 e Ribeirão Pires 9.405. Quanto mais pontos um Município apresenta, menos qualificado está no ranking nacional.
Na Dimensão de Fundamentos do Bem-Estar, São Caetano ocupa a melhor posição com 643 pontos na soma de todos os indicadores. Santo André soma 1.398, São Bernardo 1.648, Diadema 2. 799, Mauá 1.288, Ribeirão Pires 1.208 e Rio Grande da Serra, 5.465 pontos.
Na Dimensão de Oportunidades, a liderança regional é de São Bernardo com 7.062 pontos negativos. Os demais: Santo André, 9.584, São Caetano 9.340, Diadema 7.795, Mauá 10.797, Ribeirão Pires 10.863 e Rio Grande da Serra 11.421 pontos.
Como se observa, a Divisão de Necessidades Humanas Básicas apresenta péssimos resultados no Grande ABC. O total de 54.953 pontos negativos (ou acumulado de posições nas respectivas dimensões) é um retrato grave do quadro regional, mas não é o pior. A Dimensão de Oportunidades é a mais complexa e carente de transformação, contando com 66.862 posições acumuladas dos sete municípios. A Dimensão de Fundamentos do Bem-Estar, com 14.449 pontos (colocações acumuladas) é a que apresenta os melhores resultados do Grande ABC.
Dividindo o total geral (136.264 pontos) por sete municípios, como se fosse apenas um, o total de pontos seria de 19.466 -- Individualmente, Santo André contabiliza 19.895 pontos negativos, São Bernardo 14.742, São Caetano 14.057, Diadema 17.275, Mauá 21.077, Ribeirão Pires 21.476 e Rio Grande da Serra 28.369.
PRIMEIRA DIMENSÃO
A Dimensão de Necessidades Humanas Básicas conta com quatro divisões. Em Nutrição e Cuidados Básicos estão Cobertura Vacinal (Poliomielite), Hospitalização por Condições Sensíveis à Atenção Primária, Mortalidade Ajustada por Condições Sensíveis à Atenção Primária, Mortalidade Infantil até cinco anos e Subnutrição. São Caetano tem a melhor média com 84,92, resultado que garantiu a posição 832 no País.
Na divisão de Água e Saneamento constam os indicadores de Abastecimento de Água em Rede de Distribuição, Esgotamento Sanitário Adequado, Índice de Abastecimento de Água e Índice de Perda de Água na Distribuição. A melhor média entre os sete municípios da região é de São Caetano com 96,25 -- resultado que coloca o Município na 25ª posição nacional.
Na divisão de Moradia, constam quatro indicadores: Domicílios com Coleta de Resíduos Adequada, Domicílio com Iluminação Elétrica Adequada, Domicílio com Paredes Adequadas e Domicílios com Piso Adequado. O melhor resultado da região é de São Caetano, com média de 96,41, o que garantiu a posição 362 no Brasil.
Completando a Dimensão de Necessidades Humanas Básicas, o indicador de Segurança Pessoal é liderado na região por Rio Grande da Serra, com média de 72,11, o que garantiu a posição 1.414 no ranking nacional. O indicador é composto por Assassinatos de Jovens, Assassinatos de Mulheres, Homicídios e Mortes por Acidente de Transporte.
SEGUNDA DIMENSÃO
Na Divisão de Fundamentos de Bem-Estar, a melhor posição regional é de São Caetano, com média geral de 7,93 pontos, situação que coloca o Município na posição 12 no ranking nacional. Essa Divisão conta com quatro macroindicadores: Acesso ao Conhecimento Básico, Acesso à Informação e Comunicação, Saúde e Bem-Estar e Qualidade do Meio-Ambiente.
Em Acesso ao Conhecimento Básico, São Caetano apresenta o melhor resultado regional com média de 86,41 pontos e a posição 126 no ranking nacional. Os indicadores são: Abandono no Ensino Fundamental, Abandono no Ensino Médio, Evasão no Ensino Médio, Distorção Idade-Série no Ensino Médio, Ideb no Ensino Fundamental e Reprovação Escolar no Ensino Médio.
Em Acesso à Informação e Comunicação, a liderança regional também é de São Caetano com 92,26 pontos, posição 69 no ranking nacional. Os indicadores desse macroindicador são Cobertura de Internet Móvel (4G/5G), Densidade de Internet Banda Larga Fixa, Densidade de Telefonia Móvel e Qualidade da Internet Móvel.
O terceiro indicador da Dimensão de Fundamentos do Bem-Estar é Saúde e Bem-Estar, com os quesitos Consumo de Alimentos Ultraprocessados, Expectativa de Vida, Mortalidade entre 15 e 50 Anos, Mortalidade por Doenças Crônicas Não Transmissíveis, Obesidade e Suicídio. A liderança regional é de Mauá com 69,57 pontos em média, ou a posição 59 no Brasil.
Completando a Dimensão, o macroindicador Qualidade do Meio Ambiente envolve cinco indicadores: Área Verdes Urbanas, Emissões de CO2 por Habitante, Focos de Calor, Índice de Vulnerabilidade Climática dos Municípios (IVCM) e Supressão da Vegetação Primária e Secundária. A melhor posição regional é de Diadema, com média de 69,89 pontos e a posição 78 no Brasil.
TERCEIRA DIMENSÃO
Por fim, na Dimensão Oportunidades, o melhor resultado regional foi registrado por São Bernardo, com a média geral de 51,89 e a posição 244 no ranking nacional. Essa divisão conta com quatro macroindicadores: Direitos Individuais, Liberdades Individuais e de Escolha, Inclusão Social e Acesso à Educação Superior.
O indicador Direitos Individuais é liderado na região por São Bernado com 51,14 pontos, resultado que garante a posição 212 no ranking nacional. Fazem parte desse macroindicador as seguintes especialidades: Acesso a Programas de Direitos Humanos, Existência de Ações para Direitos de Minoria, Índice de Atendimento à Demanda da Justiça, Resposta a Processos Previdenciários, Resposta a Processos Familiares e Taxa de Congestionamento Líquido de Processos.
O indicador de Liberdades Individuais e de Escolha é liderado na região por São Bernardo com média de 63,17 pontos, colocando-se na posição 123 no ranking nacional. Fazem parte desse indicador: Acesso à Cultura, Lazer e Esporte, Gravidez na Adolescência (menores de 19 anos), Índice de Vulnerabilidade da Famílias do Cadastro Único (IVCAD) e Praças e Parques em Áreas Urbanas.
O indicador de Inclusão Social é liderado na região por Rio Grande da Serra com 44,57 pontos, o que representa a posição 4.926 no ranking nacional. Os itens incluídos no indicador: Famílias em Situação de Rua, Paridade de Gênero na Câmara Municipal, Violência contra Indígena, Violência contra Mulheres e Violência contra Negros.
Completando a Dimensão de Oportunidades, o macroindicador Acesso à Educação Superior é liderado na região por São Caetano com 74,35 pontos, ou a posição 17 no ranking nacional. Compõem o indicador: Empregados com Ensino Superior, Mulheres Empresas com Ensino Superior e Nota Mediana do Enem.
CONSTRUÇÃO DO ÍNDICE
O que se segue nesta análise foi extraído do site oficial da organização do Campeonato Brasileiro de Qualidade de Vida.
O índice varia de 0 (pior) a 100 (melhor) e corresponde à média simples dos resultados do IPS das três dimensões. A nota de cada dimensão, por sua vez, é a média simples dos resultados de cada componente. E, por fim, os resultados dos componentes são gerados a partir de pesos obtidos entre os indicadores.
Desenvolvido em parceria entre o Imazon, Fundação Avina, iniciativa Amazônia 2030, Anattá, Centro de Empreendedorismo da Amazônia e Social Progress Imperative, o IPS Brasil é baseado exclusivamente em dados públicos e atualizado anualmente. A ferramenta permite acompanhar tendências e medir a efetividade de políticas públicas em tempo real.
A construção do IPS Brasil 2026 seguiu metodologia rigorosa baseada no padrão internacional do índice. A escolha dos 57 indicadores usados no cálculo obedece a critérios como relevância social ou ambiental, foco em resultados, uso de dados públicos e confiáveis, atualizados e disponíveis para, pelo menos, 95% dos municípios do país.
MODELAGEM ESTATÍSTICA
Cada dado passa por modelagem estatística detalhada, que inclui normalização, verificação de qualidade, definição de valores de referência e aplicação de pesos definidos por Análise de Componentes Principais (ACP).
O Progresso Social é definido como a capacidade da sociedade de atender às necessidades humanas básicas, garantir qualidade de vida e ampliar oportunidades para que todos os indivíduos possam atingir seu potencial. Para calcular o índice, o IPS leva em consideração 57 indicadores sociais e ambientais, com foco em resultados, uso de dados públicos confiáveis, atualizados e com ampla cobertura territorial. “Ou seja, o IPS mede resultados e não volume de investimentos, ou riquezas, nos interessa saber se os serviços públicos estão, de fato”, sendo entregues aos cidadãos”, afirma Melissa Wilm, coordenadora do IPS Brasil.
MELHORES E PIORES
Entre os 20 melhores resultados, há forte predominância de cidades do Sudeste, especialmente do Estado de São Paulo, com destaque para Gavião Peixoto (SP), que lidera o ranking nacional, seguido por Jundiaí (SP), Osvaldo Cruz (SP) e Pompéia (SP). Também aparecem cidades do Sul e Sudeste, como Curitiba (PR), Nova Lima (MG) e Maringá (PR), indicando maior concentração de altos níveis de progresso social nessas regiões. Na outra ponta, os 20 municípios com piores desempenhos concentram-se majoritariamente na região Norte, especialmente no estado do Pará, além de municípios de Roraima, Acre, Tocantins e Maranhão. Uiramutã (RR) ocupa a última posição do ranking, seguido por cidades como Jacareacanga (PA) e Alto Alegre (RR).
O ranking das capitais no IPS Brasil 2026 mostra diferenças relevantes nos níveis de qualidade de vida entre grandes centros urbanos do país. Curitiba (PR) lidera com 71,29 pontos, seguida por Brasília (DF), com 70,73, e São Paulo (SP), com 70,64. Na sequência aparecem Campo Grande (MS), com 69,77, e Belo Horizonte (MG), com 69,66. Na faixa intermediária, capitais como Rio de Janeiro (RJ) registram 67,00 pontos, Porto Alegre (RS) 66,94 e Natal (RN) 66,82. Já entre os menores resultados estão Salvador (BA), com 62,18, Maceió (AL), com 61,96, Macapá (AP), com 59,65, e Porto Velho (RO), com 58,59. A diferença entre a capital mais bem colocada e a última ultrapassa 12 pontos, evidenciando a variação nos níveis de progresso social entre as capitais brasileiras.
“Apesar do bom desempenho das capitais, todas apresentam sérias dificuldades no componente de inclusão social, com altos índices de violência contra minorias, famílias em situação de rua e baixa paridade de gênero e raça nas câmaras municipais”, afirmou Melissa Wilm.
ESTADOS AVALIADOS
O IPS também avalia o desempenho médio dos estados brasileiros. Distrito Federal, São Paulo e Santa Catarina foram os mais bem colocados. Na outra ponta, Pará, Maranhão e Acre. No ranking dos estados do IPS Brasil 2026, o Distrito Federal (1º), São Paulo (2º) e Santa Catarina (3º) apresentam as melhores pontuações, destacando-se no mapa com os níveis mais elevados de progresso social. Na outra ponta, os menores desempenhos concentram-se nas regiões Norte e Nordeste, com Acre (25º), Maranhão (26º) e Pará (27º) ocupando as últimas posições do ranking. Considerando as regiões geográficas, o Distrito Federal lidera no Centro-Oeste, São Paulo no Sudeste e Santa Catarina no Sul, enquanto a Paraíba se destaca no Nordeste e Tocantins apresenta o melhor desempenho entre os estados da região Norte.
RESULTADOS GERAIS
O Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026 mostra que o país alcançou pontuação média de 63,40, em uma escala de 0 a 100, indicando uma evolução sutil em relação ao ano anterior. Entre as dimensões do índice, Necessidades Humanas Básicas apresentou o melhor desempenho, com média de 74,58, seguida por Fundamentos do Bem-estar, com 68,81. Já a dimensão Oportunidades registrou o menor resultado, com 46,82, mantendo o padrão observado desde as edições anteriores.
Na análise dos 12 componentes que compõem o índice, Moradia obteve a maior pontuação média (87,95), seguida por Acesso à Informação e Comunicação (79,81), que também apresentou o maior avanço percentual em relação ao ano anterior. Em contrapartida, os piores resultados concentram-se na dimensão de Oportunidades, com destaque para Direitos Individuais (39,14), Acesso à Educação Superior (45,97) e Inclusão Social (47,22).
O componente de Inclusão Social mantém trajetória de queda desde 2024, refletindo desafios persistentes como a baixa representatividade de mulheres e pessoas negras nas câmaras municipais e os altos índices de violência contra minorias. Ao mesmo tempo, parte da região Nordeste apresenta desempenhos relativamente melhores nesse tema.
DESAFIOS REGIONAIS
Os resultados também evidenciam desafios regionais. Estados da Amazônia Legal apresentam desempenho mais baixo no componente de Qualidade do Meio Ambiente, influenciados pelo desmatamento acumulado e pela concentração de emissões de gases de efeito estufa. Já o componente de Saúde e Bem-estar aponta fragilidades especialmente nas regiões Sul e Sudeste, associadas a taxas elevadas de obesidade, suicídio e mortalidade por doenças crônicas não transmissíveis.
O estudo classifica os municípios brasileiros em nove grupos de desempenho, representados no mapa nacional por diferentes tonalidades. O Grupo 1, com melhores resultados, reúne 706 municípios, enquanto o Grupo 9, com piores desempenhos, concentra apenas 23 municípios. Entre 2025 e 2026, 754 municípios avançaram para grupos de melhor desempenho, enquanto o número de cidades nas faixas mais baixas foi reduzido em 500 municípios, indicando mudanças importantes na distribuição do progresso social no país.
O grupo com melhores resultados concentra a maioria das capitais e grande parte dos municípios mais populosos, com mais de 200 mil habitantes. Já os municípios com piores desempenhos tendem a apresentar baixa densidade demográfica e maior distância dos grandes centros urbanos.