Esta é a 352ª edição desta revista digital com abordagem direta e indireta sobre o Ciesp, braço municipal da Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Vou tratar do que li nas páginas do Diário do Grande ABC sobre o Dia da Indústria. Acho que ao longo dos anos esgotei tudo o que era possível sobre a atuação das unidades do Ciesp no Grande ABC, mas uma atualização ou uma nova pincelada é sempre providencial. O que temos é um quadro preocupante.
As lideranças ouvidas são heróis da resistência de uma atividade que até prova em contrário perdeu a conexão com o sucesso industrial do passado. Mais que isso: o presente já é bastante comprometedor.
A reportagem do Diário do Grande ABC com algumas lideranças empresariais teve a notável revelação de que os representantes do capital privado local estão perdidos em meio ao tiroteio generalizado que fragiliza o setor ainda mais importante da região e do País como um todo. Um quarto do PIB Geral do Grande ABC passa pelo setor de transformação industrial. No começo deste século era metade do PIB Geral.
ESPEREM 2040
Quando o ano 2040 chegar, na toada que vamos indo, o PIB Industrial do Grande ABC vai beirar apenas 15%. Isso não é cartomancia. É estatística com base na média das duas décadas deste século. Já mostrei esses dados em detalhes.
O diagnóstico dos empresários, como se verá logo abaixo, quando reproduzo o texto do Diário do Grande ABC é tão certeiro no ambiente macroeconômico quanto imprecisão no que envolve a economia regional.
O fato é que estamos lascados duplamente, embora as entrevistas mencionadas façam referências dualísticas, de relativo conforto e cuidadoso desespero. A indústria regional vive o pior dos mundos, porque é soterrada em forma de perspectivas tanto por motivos sistematicamente locais como enraizadamente nacionais.
Antes de reproduzir a reportagem do Diário do Grande ABC entremeando-a com breves ponderações (os temas já foram exaustivamente analisados nesta publicação ao longo dos anos) convém uma sugestão que prescindiria de explicações àqueles que conhecem os cromossomos deste jornalista.
CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO
De que se trata, afinal? Está faltando no organograma institucional o que chamaria de Clube das Indústrias do Grande ABC. Uma proposta que não vou detalhar agora, mas que é simples: para dar um drible da vaca no divisionismo autofágico do Ciesp no Grande ABC, nada melhor que juntar seus representantes numa entidade estratégica em paralelo à autonomia das individualidades divisionistas da instituição. Uma espécie de Conselho de Administração.
Talvez os leitores não saibam, mas o Ciesp do Grande ABC foi esquartejado em quatro unidades, representando Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande ABC num primeiro compartimento, além das individuais São Caetano, Diadema e São Bernardo. Os magos da Fiesp fizeram uma obra semelhante ao que os emancipacionistas do Grande ABC, então território único, perpetraram em meados do século passado. Dividiram para controlar e reinar.
No caso do Ciesp em relação à Fiesp, o que temos é algo pior do que fizeram os separatistas do século passado. Além de divididos territorialmente sem qualquer efetividade orgânica em forma de tratamento regional de questões industriais semelhantes ou não, as unidades do Ciesp da região sempre ficaram a reboque da poderosa Fiesp. Viramos institucionalmente um pobre puxadinho da Avenida Paulista.
JOGO PESADO
Enquanto isso, o sindicalismo cutista, principalmente, tomou conta do barraco de deliberações e narrativas com a centralização de objetivos e ações. A história mostra o que ocorreu com a indústria da região a partir das primeiras greves metalúrgicas. E o que veio em seguida, independentemente dos metalúrgicos e de outras categorias. Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e Dilma Rousseff têm vários pontos em comuns na tragédia regional.
O Clube das Indústrias do Grande ABC seria uma tacada de mestre caso fosse levado adiante e, também, caso obtivesse libertação das amarras burocráticas da Fiesp, sem necessariamente chegar-se a rompimento. Diferentemente disso: o Clube das Indústrias poderia fortalecer o poder piramidal da Avenida Paulista. Tudo é questão de definição de plano de voo. Cooperação em vez de divisão. Compreensão de especificidades municipais e regionais ao invés de empacotamento de alhos e bugalhos.
Voltando à reportagem do Diário do Grande ABC e das entrevistas com os empreendedores que comandam o Ciesp na região. Talvez a melhor maneira de transformar o que parece complexo em didático seja entremear observações no texto original do Diário sob o título “Burocracia, juros e falta de mão de obra preocupam indústria”. Vamos lá, então?
DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Os dois cortes sucessivos anunciados em 2026 pelo Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central na Selic, que agora está em 14,5% ao ano, não foram capazes de aliviar de maneira incisiva os problemas que as altas taxas de juros geram na indústria da região. Nessa balança, burocracia, procura por mão de obra qualificada para o chão de fábrica e falta de terrenos para expansão de plantas se tornam pontos de atenção. Por outro lado, diretores das regionais do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) no Grande ABC celebram hoje, no Dia da Indústria, o potencial das empresas locais para se reinventarem diante das oscilações econômicas e avanços tecnológicos. Destacam, ainda, a capacidade das companhias de se adequarem às tendências sustentáveis, que se transformaram em diferencial competitivo. Ao todo, a região tem 420.088 empresas, sendo 13,8% do setor da indústria (58.037), que perde protagonismo para serviços (285.358 ou 68%) e comércio (76.107 ou 18,1%), como expõe o IPC Maps deste ano.
CAPITALSOCIAL – A burocracia é preferência nacional em todos os setores a procura por mão de obra qualificada põe uma pá de cal definitiva num dos mitos da região, celebrada como território preparado para grandes avanços industriais porque não faltariam trabalhadores qualificados. Uma bobagem que contraria a marcha da contagem do tempo e a bola na marca da penalidade de avanços tecnológicos em direção a outras bandas territoriais como um dos requisitos básicos à industrialização fora das metrópoles ensandecidas. Já quanto ao número de empreendimentos, o setor de indústria de transformação não passa de cinco mil estabelecimentos. Os números estratosféricos da Consultoria IPC, que gera o IPC Maps, abrangem todas as atividades, sobretudo e preocupantemente as micros e pequenas empresas, que, em larga medida, não passam de desempregados envergonhados que se dizem empreendedores e de pequenos negócios de poucos trabalhadores.
DIÁRIO DO GRANDE ABC -- O diretor do Ciesp Santo André, Eduardo Batistella Mazurkyewistz, aponta que a região sempre teve vocação industrial e continua sendo um dos polos mais relevantes do País, mas hoje a competitividade exige muito mais do que escala produtiva. “Temos infraestrutura, localização estratégica, tradição industrial e capital humano. Apesar disso, precisamos criar um ambiente mais favorável para novos investimentos e para a expansão das empresas já instaladas aqui. São necessárias velocidade de adaptação, qualificação de mão de obra e capacidade de integrar tecnologia aos processos industriais.”
CAPITALSOCIAL – O otimismo do representante do Ciesp de Santo André é deslumbrante. Agora, só falta combinar com a realidade dos fatos. A vocação industrial do Grande ABC já foi relativamente para o espaço sem que muitos se deem conta. O que temos para valer é o que ainda resta de uma metamorfose comum às grandes metrópoles. O PIB Industrial do Grande ABC é metade do registrado da virada do século. Os dados são mascarados porque a Doença Holandesa Petroquímica e Química esconde parte do desastre da aniquilação de cadeias produtivas de outros setores, impactadas pelo êxodo industrial ao sabor da guerra fiscal e de outras chagas. Quando se observa o Grande ABC sob condicionantes de um combo de competitividade de amplo conhecimento de grandes companhias que contam com o reforço de consultoria de negócios, perdemos de goleada. Somente situações muito específicas tornam o Grande ABC território a ser desbravado. Resta saber se o destino será tão generoso.
DIARIO DO GRANDE ABC -- Segundo o diretor Mauro Peres, do Ciesp São Caetano, lidar com os juros e encontrar novos funcionários são as “dores” do setor. A próxima decisão sobre a Selic está agendada para 16 e 17 de junho. “Concorremos com serviços autônomos, entregas por aplicativo, que atraem pela jornada flexível e chance de salário maior.” Em meio às questões gerais do mercado, Peres aponta que a cidade passa por problemas específicos de estrutura. “Já não há terrenos disponíveis para o crescimento das empresas. A indústria está limitada àquele tamanho que ela tem hoje. Se ela crescer, tem que sair de São Caetano. Se for para outro município do Grande ABC, tudo bem, porque mantém o investimento aqui, porém elas também começam a deixar a região. Impacta em tributos e geração de emprego e renda. Em futuro, podemos ser uma cidade-dormitório.”
CAPITALSOCIAL – O caso de desindustrialização de São Caetano por conta de escassez de espaço ao chamamento de investimentos deve ser enquadrado como exceção de uma regra muito simples: o menor território regional não comporta empreendimentos industriais que determinariam mudança de rumo. A terra, entre outros fatores, é cara demais e se torna objeto de especulação imobiliária. Os danos da desindustrialização de São Caetano competem fortemente com o esvaziamento de Santo André. Nos demais municípios, espaços não faltam, mas a história é a mesma.
DIÁRIO DO GRANDE ABC -- O diretor da regional de São Bernardo, Mauro Miaguti, elenca a necessidade de mais aportes em capacitação e a alta tributação como problemas gerais. “Vejo que faltam financiamentos. A Alemanha, por exemplo, investe muito em pesquisa e desenvolvimento para que as indústrias sejam mais competitivas.” De acordo com ele, há demora para acessar recursos do Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). “O processo é burocrático. Mas, ao mesmo tempo, nós temos grandes oportunidades, fomentadas pela criatividade e resiliência das empresas nacionais que se desenvolvem mesmo diante do cenário difícil”, aponta.
CAPITALSOCIAL – O diretor do Ciesp de São Bernardo é um eterno apaixonado por planos mirabolantes e perspectivas adocicadas jamais traduzidos em fatos, em realidade. Miaguti e dirigentes do Ciesp assistiram do camarote de descaso o desabamento do PIB per capita de São Bernardo nos dois últimos anos de governo de Dilma Rousseff. Jamais esboçaram qualquer reação. Aliás, como as demais unidades do Ciesp no Grande ABC. São Bernardo perdeu 30% do PIB per capita em 24 meses, enquanto o Grande ABC como um todo se aproximou dessa marca macabra. Tudo por conta dos choques industriais provocados pela gastança pública nacional que gerou prejuízos menos devastadores.
DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Para o diretor do Ciesp de Diadema, José Adolfo Gazabin Simões, a burocracia influencia um “aumento de custo terrível” para gerir a complexidade dos sistemas tributários. “Licenciamentos municipais e ambientais têm alta complexidade e demandam horas de trabalho, onerando as empresas industriais de uma maneira maior, principalmente quando comparada a países já desenvolvidos industrialmente maiores do que nós.” Ele indica que escassez de mão de obra já é uma crise nacional. “Temos dificuldade de contratação e retenção de funcionários e operadores. Isso em função da modernização, dos diversos tipos de empregos disponíveis, da cultura do jovem quanto relacionado a um trabalho formal, de não querer ficar preso por tantas horas dentro de uma fábrica.” Gazabin Simões pontua que a integração de diferentes atores sociais, como universidades e poderes público e privado, são capazes de ajudar a criar estratégias para amenizar os empecilhos do setor.
CAPITALSOCIAL – Há várias décadas a cantilena defensiva do setor industrial da região segue o mesmo diapasão: é preciso juntar as forças para definir um movimento de mudanças consistentes. Esse é um caminho que precisa ser relativizado, porque gera mais calor de desperdício de tempo do que luz de precisão terapêutica. O Desenvolvimento Econômico do Grande ABC precisa mesmo, e CapitalSocial, do ventre da revista de papel LivreMercado, é pioneira na pregação de reforçar a busca de soluções com a contratação de consultoria especializada em competitividade.
DIÁRIO DO GRANDE ABC -- Na busca por retomar a força industrial no Grande ABC, a sustentabilidade se impõe como pilar para explorar o potencial competitivo das empresas. Segundo pesquisa da Nexus, encomendada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), 80% dos executivos brasileiros defendem o uso sustentável da biodiversidade como ativo estratégico e 70% consideram a bioeconomia necessária para o futuro do setor.
Para o diretor do Ciesp Santo André, Eduardo Batistella Mazurkyewistz, isso deixou de ser tendência e passou a ser exigência. “Muitas companhias da região já investem em eficiência energética, redução de resíduos, economia circular, reaproveitamento de materiais, energia limpa e processos produtivos mais sustentáveis. Existe pressão crescente dos próprios clientes e das cadeias globais por fornecedores alinhados a isso. Quem não acompanhar, corre o risco de perder mercado nos próximos anos.”
Mazurkyewistz destaca que o tema deve ser trabalhado como oportunidade, não entrave. “Não pode ser apenas um custo adicional, mas sim ganho de eficiência e geração de valor para os negócios. Precisamos garantir que essa transição aconteça de forma equilibrada e viável economicamente, em especial para pequenas e médias empresas.”
CAPITALSOCIAL – Esse é mais um desafio inquietante entrentre o desastre que vem do passado tanto no âmbito local quanto nacional e as demandas por inovações e tecnologia que a maioria das pequenas e médias industrias nem de longe incorporaram ao léxico de competitividade. O manancial básico que cobra os empreendedores sinais vitais de sobrevivência transforma as novas exigências em fosso ainda mais profundo a se manterem no mundo de empreendimentos minimamente viáveis.