Essa coletânea de 60 anos de jornalismo mostra neste décimo capítulo dois textos separados no tempo mas conexos à compreensão histórica do capitalismo e do socialismo no Estado do Grande ABC. Entenda-se Estado do Grande ABC como os sete endereços em que se dividiu o território regional no século passado. Nesse desenho geográfico, São Bernardo e a vizinha Diadema são antípodas na formatação econômica e nas consequências sociais.
O capitalismo fortemente influenciado pelo Estado Federal na implantação e proteção à indústria automotiva ao longo de décadas, e posteriormente abalroado por políticas federais disruptivas, carrega deformidades.
Já as políticas públicas de viés fortemente socialista implantadas durante quatro décadas em Diadema pelo Partido dos Trabalhadores têm identidades próprias.
Embora com enredos distintos, São Bernardo e Diadema sofrem as dores do parto do esgotamento de recursos orçamentários em sintonia apavorante com a evasão industrial.
O primeiro texto que selecionei para procurar antepor duas realidades diferentes mas paradoxalmente compatíveis foi publicado na edição de 25 de outubro de 2017 sob o título “Modelo fracassa e São Bernardo lidera em desigualdade salarial”. A segunda análise é de 26 de janeiro de 2024 e tem como manchetíssima “Igualdade socialista de Diadema é um fracasso”.
O interessante no cruzamento desses dois textos, entre outros pontos, é a possibilidade de uso elástico dos termos igualdade e desigualdade. A desigualdade salarial em São Bernardo ante a vizinhança é semelhante à desigualdade de Diadema em termos socioeconômicos também diante da vizinhança.
Diadema com maior grau de igualdade social, é também desigual, porque não acompanhou a marcha de riqueza dos demais municípios exatamente porque perdeu por razões ideológicas de intervencionismo do Estado Municipal o bilhete premiado que a logística escancarou e ainda escancara, agora com baixo poder de produtividade econômica.
É desnecessário dizer que esse novo capitulo de uma coletânea que contará com 60 edições jamais constou de pauta de qualquer veículo de comunicação no Brasil. O que é uma calamidade porque, entre outros valores a desvendar, mostra-se que tanto o capitalismo excessivamente protegido pelo Estado quanto os fluidos socialistas descolados de programas econômicos têm prazo de validade.
O Estado de Bem Estar Social na Europa há muito tempo acionou o gatilho de um desastre gradual e irresistível, por exemplo.
E impossível deter a fadiga de material quando há desequilíbrio entre Estado, Economia e Sociedade. O sucesso do passado vira preocupação e inquietação no presente e torna ainda mais aterrorizante o futuro que virá carregado de desafios e interrogações. Acompanhem o texto de outubro de 2017.
PRIMEIRA ANÁLISE
Essa análise é inédita no jornalismo brasileiro. E não há nada entre acadêmicos que toque levemente no que exploramos. A verdade é a seguinte: a vinculação história de suposto socialismo trabalhista e pretenso capitalismo privado gerou um monstro regional que se repete em algumas outras áreas do Estado que comportam o G-22, o grupo dos 20 maiores municípios paulistas (exceto a Capital) acrescidos de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que completam o time da Província. O G-22 é criação deste jornalista. São Bernardo é campeã regional em desigualdade salarial.
São Bernardo dominada pelo sindicalismo anunciado como adepto do socialismo e que tem na cadeia automobilística o principal núcleo de produção supera largamente os demais municípios quando se confronta a média salarial das atividades industriais, comerciais e de serviços dos mais de 700 mil trabalhadores com carteira assinada na região.
Os números de assalariamentos e desdobramentos devem ser observados com atenção redobrada. Não são dados circunstanciais. Trata-se de acúmulo histórico das atividades econômicas na região. É a sacramentação de uma mistura de livre iniciativa, que marca a ocupação econômica da região, sindicalismo de viés alardeadamente socialista e intervenção de municípios, Estado e União, principalmente.
PRIMEIRA CLASSE
O desequilíbrio de salários em São Bernardo envolvendo atividades industriais, comerciais e de serviços é um atestado de condenação explícita das relações trabalhistas tão endeusadas. Não à toa a mobilidade social sofre duros percalços há mais de duas décadas. Cansamos de produzir alertas para autoridades públicas e representações privadas que não movem uma palha. Vive-se de olho apenas em benesses pessoais e corporativas.
O que a união de sindicalistas industriais e organizações empresariais principalmente de grande porte promoveram ao longo dos anos na região foi a construção de uma elite de trabalhadores. Há quase duas décadas produzimos uma Reportagem de Capa na revista LivreMercado e os chamamos sarcasticamente de “trabalhadores de primeira classe”.
O festejado sindicalismo cidadão, que estaria voltado ao conjunto da sociedade, é uma patifaria retórica de lideranças trabalhistas que se converteram em patéticos agentes públicos eleitos por currais corporativos. Não é muito diferente o entoado capitalismo privado das montadoras, protegidíssimas pelo Estado. Inclusive com medidas provisórias agora desvendadas como fraudulentas.
A baixa competitividade da indústria automotiva regional parece estar com os dias contados porque começam a chegar para valer investimentos tecnológicos que cada vez mais reduzem quadros de trabalhadores. Entretanto, há equívocos que atordoam a concorrência e os parceiros comerciais. Por isso os efeitos se farão permanentes durante prolongado inverno microeconômico.
FALTAM MONTADORAS
A média salarial do setor industrial, fator específico do desbalanço interno de São Bernardo e também no enfrentamento regional, não especifica em separado o grupo restrito dos trabalhadores nas montadoras de veículos locais. Os dados não são divulgados oficialmente pelo Ministério do Trabalho. Caso fossem, o buraco que separa indústria, comércio e serviço em São Bernardo e na região seria ainda mais profundo. Estudos recentes de órgãos vinculados a trabalhadores apontaram que a média salarial nas montadoras de São Bernardo supera a R$ 10 mil. Muito acima, portanto, da média industrial em geral.
Os trabalhadores do setor industrial de São Bernardo recebiam em média, em dezembro de 2016 (últimos dados agregados do Ministério do Trabalho), exatamente 49,18% acima da média do setor de serviços e 58,65% dos comerciários. A média de vencimentos salariais dos industriários de São Bernardo é de R$ 5.552,25, contra R$ 2.821,67 do setor de serviços e R$ 2.657,78 dos comerciários. Estavam registrados 74.939 industriários, 44.813 comerciários e 108.706 trabalhadores em serviços em São Bernardo.
Quando se comparam os salários do setor industrial de São Bernardo com os demais trabalhadores da indústria de transformação da região a diferença é extravagante. Menos em relação a São Caetano, que tem o peso da General Motors a contrabalançar em parte as montadoras concentradas na vizinha. O salário médio industrial em São Bernardo está 12,62% acima de São Caetano, 29,51% de Santo André, 28,77% de Mauá, 37,47% de Diadema, 43,89% de Ribeirão Pires e 53,24 de Rio Grande da Serra.
DESEQUILÍBRIO COMPLETO
Fosse São Bernardo endereço de equilíbrio econômico na esteira da pujança metalúrgica, sobretudo como efeito das quatro montadoras de veículos (Volkswagen, Mercedes-Benz, Scania e Ford) e uma rede de autopeças multinacionais, as atividades de comércio e de serviços também seriam fortalecidas com médias salariais semelhantes nos confrontos com os demais trabalhadores da região. Mas não é isso que se registra, conforme dados que metabolizei contamos com insumos brutos do Ministério do Trabalho.
Vejam no caso das médias salariais dos trabalhadores de serviços e de comércio contrapostas ao setor industrial. Mostraremos na sequência que a riqueza salarial do setor de transformação industrial em São Bernardo não se reproduz nas mesmas proporções nas atividades de comércio e de serviços.
No caso do confronto de São Bernardo com Santo André, a diferença de média salarial no setor industrial de 29,51% cai para 8,54% em serviços e 7,40% no comércio. Quanto a comparação é com Mauá, os 28,77% de superioridade industrial caem para 8,61% em serviços e 7,36% em comércio. Com Diadema não é diferente: a vantagem de São Bernardo no assalariamento médio industrial de 37,47% cai para 17,12% em serviços e 3,35% em comércio. Quanto a Ribeirão Pires, São Bernardo transforma a vantagem de média salarial industrial de 43,89% em 16,88% em serviços e 18,47% no comércio. Com Rio Grande da Serra a vantagem industrial de 53,24% cai para 29,13% em serviços e 29,63% em comércio.
COMÉRCIO MELHOR
O confronto com São Caetano, também por força da General Motors e autopeças, é menos agressivamente desigual. A diferença de 12,62% de assalariamento médio de São Bernardo cai para 9,14% em serviços. Já na média salarial de comércio, São Caetano é quem tem a vantagem. A atividade paga salários médios maiores que o setor de serviços, uma exceção na Província dos Sete Anões, outrora Grande ABC.
Isso quer dizer que os comerciários de São Caetano contam com salários médios acima dos trabalhadores do comércio de São Bernardo. Em termos práticos: enquanto a média salarial dos comerciários de São Bernardo em dezembro de 2016 era de R$ 2.295, 66, em São Caetano era de R$ 3.059,64. Uma vantagem de 24,97%.
Com representatividade de 29,70% de trabalhadores no conjunto de todas as atividades, inclusive públicas (74.939 ante 252.289 carteiras assinadas), o setor industrial de São Bernardo fica com 45,82% da massa de salários (R$ 416.080 milhões de R$ 907.937 milhões). A diferença de 16,12 pontos percentuais é disparadamente mais predominante de massa salarial industrial entre as atividades econômicas.
Na mesma comparação, o setor industrial de São Caetano (20.106 postos de trabalho) fica com 30,31% do total dos assalariamentos (R$ 97.498 milhões do total de R$ 321.662 milhões), contando com 19,07% de industriários. Uma diferença de 11.24 pontos percentuais. No caso de Mauá, com 20.957 trabalhadores industriais num total de 64.480 carteiras assinadas em todas as atividades (ou seja, 32,50% da força de trabalho), o setor produtivo fica com 43,73% do total de salários (R$ 82.882 milhões de R$ 189.500 milhões). Uma diferença de 11.23 pontos percentuais favorável ao setor industrial.
VIVEIRO INDUSTRIAL
Santo André contava em dezembro de 2016 com 25.264 trabalhadores industriais que recebiam o total de R$ 98.878 milhões. Em todas as atividades estavam registrados 195.125 trabalhadores que geraram R$ 534.342 milhões em salários. Dessa forma, a participação de 12,95% no total de carteiras assinados do setor industrial representavam 18,50% de participação relativa no total de assalariamentos – 5,55 pontos percentuais de diferença. Santo André, outrora “viveiro industrial”, conforme exalta o hino oficial, conta com a menor proporção de trabalhadores industriais no conjunto de empregados formais.
Diadema tem participação elevadíssima de emprego industrial formal nas atividades: são 41.312 trabalhadores do total de 91.960, o que representa 44,92%. Já na distribuição de assalariamento, a diferença a favor dos industriários não é tão proporcionalmente maior: são 50,56% do total de R$ 283.653 pagos em dezembro de 2016 (6,64 pontos percentuais). Os industriários de Diadema ficaram com R$ 143,424 milhões.
Ribeirão Pires tem participação de 29,93% de trabalhadores industriais (6.552) no total de empregados com carteira assinada (21.890) e 38,06% de participação no volume de salários (R$ 20.412 milhões do total de R$ 53.629 milhões). Rio Grande da Serra completa a lista regional com 40,30% de trabalhadores industriais (1.606) de um total de 3.985 ocupados com carteira assinada. A participação do setor produtivo de R$ 4.167 milhões da massa salarial no total de R$ 8.802 milhões registrados em dezembro de 2016 significa 47,34% do total.
Vamos voltar a tratar do assunto nos próximos dias, porque há muito mais a analisar. Exemplo? Os demais redutos do G-22 nos quais prevalecem desequilíbrios salariais por conta do setor industrial dominado pela combinação sindicalismo-montadoras.
Agora segue a análise de 26 de janeiro de 2024 sob o título “Igualdade socialista de Diadema é um fracasso”:
SEGUNDA ANÁLISE
A pretendida igualdade social de Diadema, uma igualdade sonhada por pretensos socialistas que ocupam o governo federal (e universidades a dar com o pau), deveria ser destrinchada pelos pretensos socialistas que ocupam o governo federal (e universidades a dar com pau) como elixir regenerador de conceitos.
Eles, os socialistas da boca para for ou não, vão chegar à conclusão de que a estrada da salvação não passa pelo desprezo ao capitalismo produtivo, muito confundido com capitalismo financeiro.
Capitalismo produtivo produz, com perdão da redundância. Capitalismo financeiro vive principalmente do déficit de competência de governos gastadores que constroem dívidas públicas recorrentemente prorrogadas em forma da diferença entre receitas e despesas. José Dirceu, Lula da Silva e tantos outros, além de economistas ignorantes ou maliciosos, esquecem essa equação.
Ao Estado populista o que interessa é gastar. A vezes, ou muitas vezes, o gasto ganha conotação de investimentos que não resistem à história em forma de transformações sociais que só se agravam. Na entrevista desta semana de José Dirceu à CNN, tivemos um clássico dessa distorção calculada.
SOCIALISMO ESGOTADO
O socialismo implantado à moda brasileira em Diadema, onde o PT elegeu em 1982 o primeiro prefeito no País, o metalúrgico Gilson Menezes, é um socialismo que se esgotou há muito tempo. Mais propriamente desde a queda do Muro de Berlim.
Ou alguém acredita que a porção oriental da Alemanha que se mandou sem mala e sem cuia à porção ocidental era formada por débeis mentais?
Diadema goza de inúmeras vantagens competitivas no campo econômico, mas cansou de enxotar empreendedores com omissão ou sobrecarga tributária, agora em processo de recuo.
Por essas e outras despencou no ranking de PIB per capita no Estado de São Paulo. Passou à posição 400 entre pouco mais de 600 competidores. Uma situação incompatível, quando não irresponsável, ao se considerar o potencial econômico de que dispõe.
POUCOS RICOS
A igualdade social em Diadema, a mais expressiva na região e uma das mais latentes no Brasil, é a igualdade do fracasso. Ricos são proporcionalmente uma minoria cada vez mais frágil. Pobres e Miseráveis avançam a cada temporada.
A proporção de famílias de classe rica em Diadema, em confronto com as famílias de pobres e miseráveis, é muito menor do que nas três principais cidades da região. E a proporção de famílias de pobres e miseráveis também é muito maior em Diadema do que em Santo André, São Bernardo e São Caetano.
Apenas 1,4% das famílias de Diadema são enquadradas no critério de ricos, enquanto os pobres e miseráveis chegam a 22,2%.
Em Santo André que jamais foi socialista e apesar de decadente há muito tempo, há 5,3% famílias de classe rica para cada grupo de 13,6% de pobres e miseráveis.
Em São Bernardo a proporção é de 4,9% de ricos para 17,6% de pobres e miseráveis, ante São Caetano de 7,4% e 16,3%.
TRIO MAIS RICO
Conclusão preliminar? Não passa de enganação que a suposta desigualdade social em Santo André, São Bernardo e São Caetano, relativamente aos pobres e miseráveis, é muito maior que em Diadema. Afinal, supostamente, quanto menor a diferença de ricos ante pobres e miseráveis, menos desigual seria uma sociedade.
Diadema estaria, portanto, muito aquém da pretensa igualdade na disputa entre ricos, pobres e miseráveis. Santo André, São Bernardo e São Caetano seriam menos desumanas e não requereriam reparos. Se mais ricos das três cidades fossem pobres e miseráveis, teríamos uma sociedade mais próxima da perfeição socialista? Ou, alternativamente, a saída seria mesmo Diadema contar com mais ricos e menos pobres e miseráveis?
Se você chegou até aqui e ainda não entendeu essa equação é porque deixei para o que se segue agora exemplos definitivos de que os conceitos de desigualdade e igualdade precisam ser arbitrados com muito cuidado.
FRATURAS EXPOSTAS
A diferença de consumo, em valores monetários, entre os 13.502 famílias de classe rica de Santo André e as 34.789 famílias de pobres e miseráveis é de 18,9 pontos percentuais. Os ricos de Santo André contavam com potencial de consumo no ano passado (segundo estudos especializados da Consultoria IPC) de 22,5% do total geral, enquanto os pobres e miseráveis não passavam de 3,6%.
Nesse jogo de 22,5% a 3,6%, temos uma goleada de diferença. Santo André é, supostamente, segundo a dialética socialista, extremamente desigual.
São Bernardo dos revolucionários sindicalistas liderados por Lula da Silva, não seria menos estupidamente desigual segundo a ótica socialista. Afinal, 20,1% do potencial de consumo disponível no ano passado, são detidos por ricos, cujas famílias representam 4,9% da população. Já os 17,5% de famílias de pobres e miseráveis ficaram com 5,9% do potencial de consumo.
São Caetano, que jamais flertou com o socialismo, feita pelo capitalismo industrial que também se esvai, oferece dados de desigualdade de consumo também expressivos: embora conte com 7,4% de famílias de classe rica, amealhou potencial de consumo no ano passado que representava 19,9% do total, enquanto os pobres e miseráveis, 16,3% da população, contava com apenas 4,1% de participação.
EMPATE EM DIADEMA
E a socialista Diadema? Ora, o 1,4% de famílias de classe rica ficou com 10% do potencial de consumo, resultado tenuamente superior aos 9,0% de potencial de consumo de pobres e miseráveis, que representam 22,2% da população.
Resumo: enquanto em Santo André, São Bernardo e São Caetano as famílias de classe rica marcam superioridade sobre pobres e miseráveis no potencial de consumo, com respectivas diferenças de 18,9, 14,2 e 15,1 pontos percentuais em termos financeiros, em Diadema o que temos é um jogo praticamente empatado. A desigualdade social entre ricos e pobres/miseráveis, como montante monetário de consumo, tornaria Diadema socialista mesmo.
Me parece que essa segunda equação, de potencial de consumo monetário entre essas duas divisões de classe econômica, é mais apropriada do que a primeira como métrica à aferição de desigualdade social.
MODELO DO FRACASSO
Sei que o assunto requer mais cuidados e abre espaços a contestações porque é sociologicamente nitroglicerina pura, mas os dados essenciais, básicos, fontes de qualquer tipo de desdobramento, estão aí. São irrefutáveis.
Diadema é menos agressivamente diferente na distribuição socioeconômica do que as três principais economias da região. Está portanto mais próxima da igualdade social sonhada por sonhadores ou demagogos de plantão.
A má notícia é que a menos desigual Diadema está distante da riqueza social das supostas mais desiguais Santo André, São Bernardo e São Caetano.
Traduzindo em termos mais elucidativos para quem tem dificuldade de juntar lé com cré: o modelo econômico voluntário que construiu as três principais cidades da região, no ritmo de uma industrialização decadente nas duas últimas décadas, foi muito mais efetivo em termos de transformações sociais do que o programado modelo socialista implantado em Diadema, desde Gilson Menezes, com os partidos de esquerda dividindo o comando do Paço Municipal. Exceção aos oito anos de um supostamente liberal Lauro Michels, que não interferiram no placar final.
COMPARAÇÃO CRUEL
Se alguém ainda tem dúvidas, basta comparar o potencial de consumo de Diadema com os concorrentes locais: o PIB de Consumo per capita de Diadema no ano passado era de R$ 32.415,34, enquanto Santo André contabilizava R$ 47.416,98, São Bernardo R$ 40.487,76 e São Caetano R$ 51,403,84. A menos desigual Diadema está muito aquém, portanto, das pretensas mais desiguais Santo André, São Bernardo e São Caetano.
Para não dizerem que fiz escolhas direcionadas a enfrentamentos desajustados a determinadas realidades históricas, lembro que tanto o PIB de Consumo per capita de Mauá quanto de Ribeirão Pires também são superiores ao de Diadema.
Mauá registrou no ano passado R$ 36.552,13, enquanto Ribeirão Pires apontou 36.05989. Diadema só supera Rio Grande da Serra, e mesmo assim por margem mínima: R$ 32.415,34 antes R$ 32.176.88.
Convenhamos que para quem está no ponto nobre da logística regional, bafejada pela sorte de contar com a vizinhança da Anchieta, da Imigrantes e do Rodoanel, Diadema é um case de extraordinário fracasso econômico preponderantemente porque não soube equilibrar com sabedoria o social e o econômico como partes da mesma laranja de desenvolvimento no sentido mais amplo do conceito. E está pagando caro por isso.
REPETIR DESASTRE
É uma pena que esse desenlace de reconfiguração problemática, porque a indústria de transformação foge da região como o diabo da cruz, acabou por contaminar o vigor e a tenacidade com que Diadema se especializou em políticas públicas, inclusive no setor cultural.
A revista de papel LivreMercado, criada por mim em 1990 e incorporada por CapitalSocial digital, não perdeu oportunidades para mostrar uma Diadema que parecia conciliar crescimento econômico e avanços sociais. Entretanto, ao se deixar levar pelo proselitismo ideológico do Estado Todo Poderoso também em nível municipal, Diadema deu com os burros nágua.
Algo que, como se observa, o governo federal, incorrigível Recruta Zero, pretende ressuscitar. O desastre já é conhecido, porque repetitivo.
Para quem não sabe o que significa potencial de consumo, e isso não é pecado, simplificadamente diria que é tudo o que cada família tem disponível em forma de rendimentos e reservas financeiras.
VIÉS POPULISTA
O sonho da igualdade social que Diadema acalentaria tendo, mesmo por base uma participação econômica muito abaixo de cidades mais ricas, ou menos problemáticas, se esvai exatamente quanto se dirige mais fundo nesse embaralhamento numérico de lógica social irrefutável.
Ser menos desigual socialmente não significa, portanto, que se tem o melhor dos mundos. Economias internacionais mais maduras são menos desiguais que um Brasil de desigualdades mais pronunciadas porque são sociedades que não enxotaram o capitalismo nem glorificaram o socialismo autoritário na forma ou no conteúdo, quando não duplamente.
Diadema, no caso, impôs com gestores municipais um viés populista que só recentemente se deu conta de que quem paga a conta do desenvolvimento social é quem produz riquezas, não impostos. O primeiro pode ser infindável, ou mais duradouro. O outro corre contra o relógio da exaustão.