O Grande ABC assiste complacentemente à múltipla invasão de bárbaros problemas que podem se estender por muitas temporadas e, com isso, tornar o duplo desastre regional do governo Fernando Henrique Cardoso e de Dilma Rousseff ocorrência banal ou próxima disso. E olhem que para ter esse efeito extraordinário é preciso mesmo muito impacto, porque a concorrência em forma de experiência já vivida foi dilacerante e de efeitos deletérios que seguem destruidores.
Nenhuma das três questões que vou repassar em forma de análise é novidade nestas páginas, mas reforçam posicionamentos que fizemos ao longo dos tempo. Não há como não atualizar permanentemente essas e outras abordagens que dialogam diretamente com o futuro regional.
Manter a marcha da contagem dos acontecimentos é uma forma de, no futuro, puxar o fio da meada do tempo para, entre outras razões, demonstrar aos leitores que CapitalSocial não frequenta a mesma sintonia da maioria das publicações que registram os acontecimentos num modelo de jornalismo tradicional. Diferentemente de interpretações e estudos de CapitalSocial. Cada macaco editorial no respectivo galho de comunicação.
TRÊS REPORTAGENS
Lanço mão de três reportagens publicadas nos últimos dias. A primeira nas páginas do jornal Valor Econômico de sexta-feira, produzida por Marli Olmos, jornalista especializada em indústria automotiva. As demais foram publicadas no dia seguinte, sábado, nas páginas do Diário do Grande ABC. Segundo avaliação deste jornalista, todos os textos têm relação direta com o futuro do Grande ABC. Um futuro ligadíssimo ao passado. Esse ponto é suficiente para merecer tratamento especial. Com profundidade de curadoria.
O Valor Econômico volta a escrever sobre a chegada dos chineses, principalmente os chineses, no mercado brasileiro de veículos. O título “Venda de elétricos avança e põe indústria local à prova” é relativamente generoso quando regionalizado tendo o Grande ABC como palco de desafios.
Na interpretação deste jornalista, com referência ao que aguarda o Grande ABC, a situação é muito mais dramática. A reportagem do Valor Econômico não destaca essa projeção porque se refere ao setor automotivo nacional como um todo.
PRIMEIRO TRECHO
Leia um trecho importante da reportagem do Valor Econômico: “A venda de carros híbridos e elétricos no Brasil tem superado todas as previsões, alcançando 18,3% do mercado em abril. Mas chamam a atenção os resultados dos 100% elétricos e híbridos plug-in. Desde 2023, a soma de vendas desses dois tipos de veículos supera a dos híbridos convencionais. Isso significa que o brasileiro que aderiu à eletrificação tem dado preferência aos carros carregáveis em tomadas. Puxada pelos chineses, a produção desse tipo de veículo mal começou no País. Montadoras que há décadas lideram o mercado ainda não produzem carregáveis em tomadas. E não há sinais de isso acontecer no curto prazo. O contexto põe à prova essas empresas e antecipa mudanças estruturais no parque fabril do setor” – escreveu o Valor Econômico.
Vou poupar os leitores da reportagem completa ou mesmo de vários pontos centrais do texto. Pouso as preocupações no que mais interessa à Economia e a Sociedade da região, reforçando o que já escrevi sobre a eletrificação e o curto-circuito que impactará esse território.
SEGUNDO TRECHO
Puxo mais um trecho daquela reportagem para filtrar exatamente as montadoras que estão aqui. Veja o que a jornalista Marli Olmos escreveu:
“No mercado brasileiro, as veteranas Fiat, Volkswagen e General Motors ainda dominam as vendas. Há décadas o trio alterna os três primeiros lugares entre si. Mas, à exceção da Volks, que cresceu nos três últimos anos, e a Honda, que quase não alterou a participação nesse período, as outras do grupo das dez primeiras perderam participação” – escreveu o Valor Econômico.
AMEAÇA CONCRETA
Não custa lembrar que essa invasão dos bárbaros chineses, principalmente, é uma das mais contundentes perturbações à Economia e à Sociedade do Grande ABC. Nossas montadoras tradicionais vão ter de entrar nessa disputa e essa disputa desigual, porque os chineses são predadores, levará à drástica redução do parque de autopeças e a investimentos tecnológicos nas montadoras que redundarão em massivas perdas de emprego. É reagir ou morrer.
GALPÕES LOGÍSTICOS
Essa invasão que já começou ocorre em paralelo com a ocupação de galpões logísticos de grandes players do comercio eletrônico, efusivamente saudados na região como salvadores da lavoura que jamais vai atender às exigências de Desenvolvimento Econômico. Diferentemente disso, aliás. Numa discreta edição do Diário do Grande ABC de sábado, foi anunciado que um fundo imobiliário adquiriu no Bairro Piraporinha, em Diadema, um galpão logístico de 21,3 mil metros quadrados por R$ 93 milhões.
O empreendimento passou por processo de retrofit e acrescentará a coleção de empreendimentos do setor está na cara do gol da Imigrantes e da Anchieta e, como os demais que têm ocupado espaços na região, estará voltado às entregas de última milha – no caso de resinas plásticas. Ou seja: o centro logístico será um ponto intermediário entre as produtoras e a cadeia de suprimentos.
DRIBLANDO O CAOS
O chamado last mile é o que poderia ser chamado de ramal de produtividade da cadeia de atendimento à demanda. Veículos de menor porte são utilizados para dar drible da vaca nas barreiras logísticas de uma região atormentada pela frenética disputa de cada metro quadrado de asfalto em forma de vias de transporte entupidas de veículos.
O mais inquietante e que, portanto, asfixia qualquer possibilidade de se encontrar algo positivo que não seja o pior dos mundos, ou seja, terreno ocupado invadido por sem-terra, é que Diadema chegou a um ponto que seria irreversível. Qual ponto? No passado relativamente distante, período em que o PT e outros partidos de esquerda hostilizaram o empreendedores, havia demanda às instalação de indústria de transformação. O parque industrial de Diadema era disputadíssimo, Entretanto, converteu-se, mesmo com a escassez de áreas, em atratividade a uma atividade que gera pouca riqueza, caso dos galpões logísticos. O caso de Diadema se junta ao comércio eletrônico convencional, por força da natureza de inúmeras vantagens ante o comércio físico.
MAIS ATAQUES
O pequeno comércio, salvo quem estiver sob as assas de plataformas digitais no sistema de distribuição, que é uma minoria, será dizimado. Aliás, já está sendo dizimado. Ou continua sendo dizimado, porque a concorrência com grandes corporações do setor é cruel e de elevadíssima mortalidade. Denunciamos essa tragédia há mais de 30 anos. Desde que os desempregados industriais viraram empreendedores no sufoco. Esse é um fenômeno metropolitano, ou seja, o excesso de disputa comercial entre os pequenos negócios e comércio e serviços. No Grande ABC a situação é muito pior por causa da desindustrialização, ainda a principal matriz de Desenvolvimento Econômico.
Quem se dispuser a dar um passeio pela periferia da região vai ficar horrorizado com a quantidade de pequenos negócios que fecharam as portas e instalam placas de aluguel ou venda na expectativa do quase impossível: que apareçam malucos de pedra para empreendimentos mesmo de sobrevivência.
INADIMPLÊNCIA TERRÍVEL
Completando a lista de invasores, o exército de pessoas físicas inadimplentes que virou notícia no Diário do Grande ABC é alucinante. Só não é mais do que parece ser porque a reportagem não trafega pela situação nacional, mas isso não importa muito agora. Segundo o jornal, “o ticket médio de dívidas por inadimplentes ficou em R$ 7.617,57 em abril no Grande ABC, alta de 12,1% em comparação ao mesmo período do ano passado, quando a margem era R$ 6.793,29. “A região passou de 1.04 milhão de pessoas com dívidas em atraso para 1,17 milhão em um ano”.—escreveu o jornal.
Cada vez mais sinto o cheiro da pólvora do desastre de Dilma Rousseff entre 2014 e 2016 no Grande ABC. Uma catástrofe muito maior do que a registrada no Brasil como um todo. A perda do PIB naqueles dois anos não chegou a 8% no território nacional, mas as especificidades do Grande ABC levaram a derrocada a estonteante queda de 22% em 24 meses, ou 30% de queda do PIB per capita.
A macropolítica e a macroeconomia verde e amarela indicam que quando a festa da gastança terminar, como por razões semelhantes terminou pós- segundo mandato de Lula da Silva, mas igualmente populistas, não vai sobrar nada além de mais comprometimento da dívida pública, baixa produtividade e todo o dicionário de contradições que tornam o País uma certeza em direção ao abismo. Os efeitos alucinógenos de crescimento turbinado por politicas completamento alheias a qualquer manual de compromisso com o futuro farão do Grande ABC território de dilúvios sociais e econômicos. Foi assim com Fernando Henrique Cardoso. Foi assim com Dilma Rousseff pós-Lula.