Vou confessar aos leitores o quanto me arrependo de ter dito repetidamente durante muito tempo uma frase que soava como desabafo e que se converteu numa maldição que compartilho como autor e vítima. Que frase teria dito desde aquele março de 1990 quando, num gesto de loucura, resolvi criar uma revista que trataria, inicialmente, apenas da Economia do Grande ABC e, logo em seguida, abraçou todos os demais temários, incluindo a exclusão social simbolizada na atuação das lendárias Nossas Madres Terezas? Que frase, final, disse este jornalista, reiteradamente, às vezes com irritação, outras vezes um repto desafiador?
SÓ ESPERE VINTE ANOS PARA VER O RESULTADO.
A frase demoníaca que proferi em resposta a interlocutores visíveis ou não que me esfolavam a alma porque entendiam que a linha editorial daquela publicação que durou quase duas décadas e que se estende por quase outras duas décadas neste formato digital deveria ser positivista acima de todas as coisas. Se o ufanismo fosse o melhor remédio para nossos males, não estaríamos onde estamos.
Infelizmente, ou mais precisamente, obviamente, estava este jornalista forrado de razão ao alertar desde a primeira edição de LivreMercado o quanto o Grande ABC corria sérios riscos de conhecer continuado pesadelo econômico e social com a queda de riqueza a partir dos desfalques industriais, principalmente do setor automotivo.
A verdade é que ainda não tinha este jornalista o conhecimento abrangente destes tempos e de tempos menos distantes para se dar conta de que a Doença Holandesa Automotiva, a qual nem essa denominação recebia, iria provocar derretimento produtivo expansivo e afetaria praticamente todas as cadeias de produção a ponto de virar o que virou tendo apenas a Doença Holandesa Petroquímica como parceira substantiva de resiliência econômica do Grande ABC.
SÓ ESPERE VINTE ANOS PARA VER O RESULTADO.
Os vinte anos previstos naquela frase amaldiçoada em represália às perseguições à linha editorial da publicação já foram consumidos, encerrados em 2010. E outros 20 anos já estão a caminho de novo prazo de validade, que se esgotará no próximo 2030. Não esperava, sinceramente, que sofreríamos tanto e tão insistentemente quando proferi aquela sentença raivosa, mas solidamente racional.
O mais engraçado ou trágico de tudo isso é que não sinto a menor dor de consciência por ter desferido aquele bólido de futurologia pós-análise de março de 1990. O que me mantém a salvo de pesadelos de cunho social é que não tenho nada a ver com os fatos que se consumaram. Mais que isso: me sinto credor, muito credor aliás, do desenlace vencido em 2010 e que se esticará numa segundo jornada até 2030. Em última instância, fiz a minha parte não só com centenas e centenas de análises com também botando a mão na massa para contribuir de forma efetiva.
Não quero e não é a intenção dessa espécie de prestação de contas mesclada subjetivamente para muitos de autobajulação. O que pretendo de fato é colocar os pingos da realidade nos is da responsabilidade social.
Se morrer amanhã e vou morrer amanhã porque o amanhã sempre chega somente os idiotas juramentados poderão tomar caminho oposto aos fatos e desprezar o legado que a revista de papel Livre Mercado e este CapitalSocial plantaram no Grande ABC.
SÓ ESPERE VINTE ANOS PARA VER O RESULTADO.
Como sou tremendamente positivista, mesmo diante de percalços aparentemente incontroláveis, vivo animado com a possibilidade de o Grande ABC acordar um dia antes do terceiro ciclo de 20 anos e encaixar uma engrenagem coletiva que transformaria a maria-fumaça de improvisos, desorganização, individualismos e corporativismo num trem-bala de coletivismo organizado e com foco suficiente para decifrar os caminhos que poderiam dar um cavalo de pau na desordem posta.
É claro que esse ânimo ao vislumbrar o futuro ainda não tem respaldo sustentável do presente, porque o passado não o permite por razões fartamente documentadas. Hoje diria que deveremos chegar a 2040, não apenas a 2030, a um estágio ainda comprometedor como sociedade em todos os sentidos, do econômico ao social.
Em algum momento desse período de 14 anos que restam para o ano 2040 suspeito, entretanto, que teremos uma largada rumo ao futuro sem que, necessariamente, nos daríamos conta de que encontramos, finalmente, uma saída redentora.
Nesse ponto, e talvez seja exatamente isso que alimenta meu lado desconfiadamente otimista, acho muito improvável que deixe de registrar o ponto chave dessa transformação, da mesma forma e em sentido contrário, matei a charada dos estragos de uma desindustrialização negada por anos e anos, a partir daquele março de 1990, quando redigi aquela análise que soou como um terremoto à autoestima regional, então embriagada de autossuficiência de que éramos território imbatível.
SÓ ESPERE VINTE ANOS PARA VER O RESULTADO.
Acho descabido demais que após dois ciclos de 20 anos praticamente completos a sociedade regional deixe de entender que a década seguinte, de 2030 a 2040, converter-se em trajetória que possivelmente determinaria novo horizonte à regionalidade e seus efeitos produtivos. Deixar que se complete meio século, de 1990 a 2040, sem que gerações que aqui se instalaram permanecesse apática, seria inadmissível.
O fracasso exigiria desse território a sentença definitiva de que não mereceria a autonomia dos sete municípios e tampouco a integração jamais consolidada em forma de regionalidade. Seria melhor o Grande ABC como um todo e as sete cidades individualmente promoverem um movimento de separatismo inverso, ou seja, de dirigirem-se ao prefeito da Capital e reivindicar a autodissolução da liberdade administrativa desses 800 quilômetros quadrados em favor da absorção pela pujante vizinha. A vantagem que teríamos com essa iniciativa é que não sofreríamos mais de Complexo de Gata Borralheira. Seriamos todos os integrantes da Cinderela.
SÓ ESPERE VINTE ANOS PARA VER O RESULTADO.
Espero sinceramente que tudo isso, ou seja, o possível meio século de desperdícios múltiplos, seja apenas um destempero cognitivo deste jornalista neste dia de frio irritante, mas nem por isso indesfrutável.
Exorcizar o Complexo de Gata Borralheira é o que chamaria de melhor projeto de cidadania do Grande ABC. Entretanto, para tanto, é indispensável enfrentar as complicações cumulativas de uma área demográfica açoitada ao longo de décadas por politicas públicas federais e estaduais, mais que municipais, absolutamente desastradas.
O presente de grego do Rodoanel Mario Covas é uma das maiores provas desse descompasso. E não será diferente se os anunciados investimentos em ramais do metrô não observarem atentamente ângulos e meandros que vão muito além da engenharia. O Planejamento Estratégico de que o Grande ABC tanto necessita passa obrigatoriamente por especialistas que associem áreas complementares e incisivas no sentido expresso de competitividade econômica, que é muito mais que mobilidade urbana.
SÓ ESPERE VINTE ANOS PARA VER O RESULTADO.
Aquela cartomante de uma tarde especulativa no Guarujá garantiu que eu viveria até o ano de 2044. Seriam 94 anos de labuta. Dona Carminha precisa ser levada a sério. Se não o foi até um passado recente, passou a ser desde aquele tiro à queima-roupa. Não sei se vai ser bom viver tanto, mas faço tudo que é possível para chegar lá. Gostaria muito de ler este texto quando a década dos anos 1940 chegar. Aliás, não só este texto, mas muitos outros. Como os 60 textos da coletânea Arca de Noé Contra o Gataborralheirismo.
Gostaria muito de ver o Grande ABC exemplar em tudo que diz respeito à regionalidade. Tenho relativamente apenas uma vida de cachorro pela frente. Não perdi a esperança, mas não posso ser positivista apenas para parecer positivista e fazer jogo de cena politicamente correta. Tomara que no presente regional já existam peças que se preparam ou já deram o tiro de partida para uma grande reviravolta que pretendo ver, analisar e festejar.