Depois de muitos anos reingressa no léxico de regionalidade do Grande ABC, aparentemente com seriedade, o conceito de mobilidade urbana em forma de investimentos públicos. O prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos, Guto Volpi, anunciou em reportagem do Diário do Grande ABC (que reproduzo abaixo) a decisão de abrir licitação para contratar a empresa que será responsável pelo Novo Plano Regional de Mobilidade Urbana da região. Não se pode confundir tomada elétrica de logística produtiva com focinho de porco de mobilidade urbana.
O prefeito dos prefeitos Guto Volpi disse ao Diário do Grande ABC que o Consórcio Intermunicipal, o nosso Clube dos Prefeitos do Grande ABC, vai atualizar o planejamento regional e criar uma base técnica para atrair investimentos, qualificar o transporte público e melhorar o fluxo viário nos sete municípios.
Agora intervenho com reflexões. Não será a primeira vez que o faço quando se trata de mobilidade urbana, mas é a primeira vez em termos de conceito mais elástico que entro em campo. Mobilidade urbana vista sob o ângulo público geralmente é desprovida da elasticidade à qual me refiro. De fato, nem de mobilidade urbana elástica deveria ser rotulada, porque é tão óbvio o que vou escrever que surpresa mesmo é ser ignorada.
CONFUNDINDO AS BOLAS
Para que o planejamento e eventuais e necessárias obras que constam da reportagem não se percam nos resultados finais que, paradoxalmente, abalariam ainda mais o fluxo de criação de riquezas no Grande ABC, é indispensável não confundir as bolas. Confundir as bolas é uma tradição no setor público menos apetrechado. Ou mais excessivamente burocratizado e geralmente preso a determinados parâmetros que não são extensos e profundos como sinônimo de produtividade.
Mobilidade urbana não necessariamente resolverá ou encaminharia soluções para a região do futuro que sempre chega se não houver correção de rota estratégica. Mobilidade urbana sem fortíssimos condimentos econômicos resultaria, podem se preparar, em novas perdas de competitividades.
Esse é o ponto e o contraponto. Paralelamente às especificidades da Engenharia e do Urbanismo Público, o prefeito dos prefeitos que é prefeito de Ribeirão Pires deveria buscar uma organização especializada em competitividade para que, especificamente em relação às obras demandadas, atue em conjunto para que o Grande ABC do futuro não fique ainda mais subordinado à cinderelesca Capital.
OUTRO LADO DA PISTA
Qualquer estudo especializado em mobilidade urbana que deixe de lado o outro lado da pista de fortalecimento, no caso o Desenvolvimento Econômico, tende a se confirmar contraditório, quanto não autofágico, em relação aos objetivos escanteados.
Querem um exemplo prático? O Rodoanel Sul, continuidade do trajeto do Rodoanel Oeste, se transformou no mais insidioso projeto de mobilidade urbana neste século no Grande ABC. Os resultados do desastre continuado foi previsto nas páginas de LivreMercado, antecessora de CapitalSocial, e seguem rigorosamente ativos.
Perdemos importância em termos absolutos e relativos ante todas as demais regiões da Grande São Paulo, principalmente do Grande Oeste, que tem Barueri e Osasco como principais endereços geográficos.
Também já escrevi muito sobre essa temática. Resumidamente, o governo do Estado, do PSDB, fez do Grande ABC um território altamente restritivo à ocupação econômica e abriu as portas e as janelas a vizinhos metropolitanos. O formato da legislação ambiental que demarcou o esquadrinhamento do Rodoanel fez gato e sapato do Grande ABC diante de uma plateia regional absolutamente distante dos fatos, quando não terrivelmente apaixonada por supostas e inexistentes vantagens econômicas.
VANTAGEM OU PREJUÍZO?
Agora, para fechar o caixão da irreversível perda de competitividade dentro do cinturão do Rodoanel de 180 quilômetros de impactos diversos, o trecho Grande Norte, com Guarulhos e vizinhança, estará liberadíssimo a novas incursões. Não custa lembrar que o PIB da Grande Oeste já é superior ao do Grande ABC e o PIB do Grande Norte está prestes à ultrapassagem.
Do jeito que estamos caminhando com a logística urbana, apenas logística urbana, do sistema BRT e do Metrô, entre outros ramais de investimentos no setor, mais abriremos espaços à competitividade suicida, porque descolada de planejamento econômico.
Melhorar a acessibilidade interna na região inclusive com potencial de aproximação com a Capital nos efeitos de ganhos logísticos, não assegura vantagem. Diferentemente disso. O que teremos vai ser mais vulnerabilidade econômica regional diante da eletrizante Capital tão próxima. A mesma Capital que conta com a evasão de perto de 40% dos trabalhadores do Grande ABC como reforços ao Desenvolvimento Econômico.
O caso de Santo André é um dos mais graves, com profunda fuga diária de mão de obra seduzida pela chamada Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, que ganhou denominações mais lustrosas ao longo dos anos mas no fundo significa mesmo uma contundente evasão de mão-de- obra e de cidadania.
CHAMEM ESPECIALISTAS
Há no acervo de análises desta publicação digital, e também da herança da versão física de LivreMercado, perto de 900 apontamentos substantivos ou assessórios a respeito de logística no sentido mais amplo possível. De mobilidade urbana, especificamente, são quase 500. Temos, portanto, algum peso na exploração desse tema.
Aliás, a logística urbana ou a mobilidade urbana já indicaram num passado recente, em análise que produzi, o quanto correríamos o risco com a conclusão do sistema BRT ou semelhante, se mantivermos as diretrizes de que os investimentos no setor sob o olhar principalmente de engenharia urbana, acentuaria perdas permanentemente inquietantes.
A decisão do prefeito dos prefeitos Guto Volpi é pertinente, necessária, providencial e tudo o mais. Mas o jovem gestor público precisa ser orientado a reforçar a turma de especialistas no tratamento do espaço físico regional além do olhar estritamente técnico, por assim dizer. A logística sob o escrutínio de competitividade econômica seria o grande diferencial para aumentar consideravelmente a carga de resolutividades que essas obras promoveriam no Grande ABC.
Não podemos jamais perder de vista que temos uma vizinha tão grandiosa quanto desafiadora. Os potenciais de ganhos quando se levam em conta os efeitos positivos dessa proximidade são muito mais preocupantes diante das perspectivas de perda de forças. A capital cinderelesca é praticamente imbatível em tudo sobre o qual derrame disposição de combate por inovações e produção.
Precisamos, como já dizia Celso Daniel pouco antes de ser assassinato, buscar nichos de mercado econômico para atenuar o esvaziamento industrial que nos deixou em situação dramática. Afinal, não temos ou temos quase nada da Capital em várias áreas, de hotelaria a consultoria, de gastronomia e serviços financeiros, de entretenimento a tecnologia.
Contar com um Grande ABC regenerado em logística urbana sem acrescentar a Economia nesse emaranhado a ser combatido é a porta da felicidade para os moradores locais serem empurrados ainda mais à vizinha tão poderosa. No livro “Complexo de Gata Borralheira” explico timtimportimtim a sociologia do Grande ABC dividido, repartido e dolorosamente dominado pela Capital que lhe rouba inclusive por assentimento toda a autoestima social para reagir a décadas de submissão. Agora segue a reportagem do Diário do Grande ABC, que me levou a essa nova incursão logística:
Consórcio abre licitação de R$ 4,49 mi
para novo plano de mobilidade
O Consórcio Intermunicipal do Grande ABC abriu licitação de R$ 4,49 milhões para contratar a empresa que será responsável pela elaboração do Novo Plano Regional de Mobilidade Urbana da região. Segundo o presidente da entidade e prefeito de Ribeirão Pires, Guto Volpi (PL), o estudo vai atualizar o planejamento regional e criar uma base técnica para atrair investimentos, qualificar o transporte público e melhorar o fluxo viário nos sete municípios consorciados. A escolha da empresa vencedora está prevista para agosto.
A concorrência eletrônica prevê a contratação de serviços especializados de engenharia e urbanismo para revisar e atualizar o planejamento regional da mobilidade urbana. O investimento integra os recursos conquistados pelo Consórcio ABC por meio do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) Mobilidade, do governo federal.
“O Consórcio já possui uma tradição de planejamento regional da mobilidade. O novo plano vai atualizar esse trabalho, trazendo uma leitura moderna dos desafios da região e apontando caminhos para os próximos anos. Estamos construindo uma base técnica sólida para captar investimentos, qualificar o transporte público e melhorar os deslocamentos de quem vive e trabalha no Grande ABC”, afirma Guto.
O recurso destinado à elaboração do plano faz parte de um pacote de R$ 41,5 milhões obtido pelo Consórcio para ações voltadas à mobilidade urbana regional. A entidade foi a única do país, entre os consórcios públicos, contemplada pelo Novo PAC Mobilidade.
A proposta é revisar e atualizar o Plano Regional de Mobilidade elaborado pelo Consórcio em 2016. O estudo reuniu diagnósticos sobre deslocamentos, sistema viário, transporte coletivo, logística urbana e integração regional, orientando projetos estratégicos ao longo da última década. Entre os resultados desse planejamento anterior estão obras como os corredores Sudeste–Santos Dumont/Giovanni Pirelli, em Santo André, e da Avenida Dona Ruyce, em Diadema.
Mais de dez anos após a elaboração do primeiro plano, a nova versão deverá incorporar mudanças urbanas e de infraestrutura ocorridas no período, como os projetos da Linha 20-Rosa do Metrô, que conectará a região à Zona Oeste de São Paulo, partindo da Estação Santo André, com integração à Linha 10-Turquesa da CPTM, até a região da Lapa e Santa Marina, e do BRT-ABC, futuro corredor de ônibus que fará a ligação entre o Grande ABC e o sistema metroferroviário na Zona Sul da Capital.
O projeto também deverá considerar os novos padrões de deslocamento da população, como o movimento diário de ida e volta entre a cidade onde a pessoa reside e onde trabalha ou estuda. além de alinhar o planejamento regional às diretrizes atuais da Política Nacional de Mobilidade Urbana.
A entidade destaca que o estudo também deverá abordar temas que ganharam relevância nos últimos anos, como mobilidade ativa, acessibilidade, integração metropolitana, uso de novas tecnologias, sustentabilidade ambiental e fortalecimento do transporte público. De acordo com o colegiado, a expectativa é que o novo plano sirva de base para intervenções estruturantes, que contribuam para a integração em toda a região.