Paulinho Serra está com saudade incontrolável do cargo de prefeito de Santo André antes mesmo de se completarem 18 meses da gestão de Gilvan Ferreira. Paulinho Serra e a mulher dele, a deputada estadual Carolina Serra, já estão em campanha eleitoral com vistas às eleições municipais de 2028, como se 2026 de disputas estaduais e federais não existisse no calendário. Paulinho Serra e Carolina Serra atropelaram o prefeito Gilvan Ferreira no final de semana que passou.
Paulinho Serra é candidato a deputado federal, embora faça suspense mais que programado pelos marqueteiros ao anunciar suposta candidatura ao governo do Estado. Carolina Serra concorre à reeleição à Assembleia Legislativa.
Há contundentes provas materiais que tornariam qualquer tentativa de negação de Paulinho Serra e Carolina Serra em oposição a Gilvan Ferreira não mais que fake news. Foi o próprio ex-prefeito autor das postagens em redes sociais. O casal Serra arquitetou o que poderia ser chamado de rompimento nada sutil com o ex-secretário de várias pastas de Santo André. Gilvan Júnior foi eleito prefeito em 2024 contando com amplo apoio do grupo político e social que elegeu Paulinho Serra. As relações foram abaladas depois das postagens de atropelamento do prefeito.
INDIVIDUALISMO
É possível que Paulinho Serra acredite que seja individualmente mais importante que o conjunto das forças politicas que o colocaram no Paço Municipal em dois mandatos. O rompimento com a gestão de Gilvan Ferreira seria, portanto, uma jogada arriscada. Tão arriscada que possivelmente provoque recuo diplomático do ex-prefeito. Mas as consequências serão semelhantes ao cristal que se esborrachou no solo. Não teria conserto.
O fato é que o Paço Municipal jamais será o mesmo Paço Municipal de antes das postagens do fim de semana. Mais que isso: como agora se sabe e se comprova que não há como consertar o que foi ostensivamente rompido, as relações no Paço Municipal e instituições mais próximas do Poder Público deverão passar por rearranjo estratégico.
O prefeito Gilvan Ferreira tem as cartas sob controle. Paulinho Serra se precipitou ao revelar planos que, postergados além calendário eleitoral desta temporada, poderiam ser mais interessantes. O capital eleitoral de Paulinho Serra, candidato a deputado federal, poderia ser calibrado no futuro. A quantidade de votos o tornaria manifesto candidato a prefeito ou o tornaria um apoiador à reeleição de Gilvan Ferreira. Agora não existiria mais essa alternativa, embora não se possa descartar a máxima de que política é a arte de fazer do improvável realidade.
GANHANDO ESCALA
Quando se faz uma jogada arriscada demais na política, o dia seguinte de repercussões pode ser o início de um desastre de longo prazo. Esse é o ponto de inflexão que as declarações de Paulinho Serra e Carolina Serra remetem.
As provas provadas, verbalizadas durante uma noite de festa junina no Paço de Santo André, parecem estar ganhando escala, mesmo depois de o próprio Paulinho Serra correr para retirar o material da Internet. Paulinho Serra foi mais comedido que Carolina Serra, mas confessou a ambição de poder.
Paulinho Serra talvez tenha subestimado a velocidade e a profundidade das redes sociais. Uma bobagem ganha a estratosfera num piscar de olhos de individualismo. Há sempre vigilantes atentos. São paparazzis de flagrantes digitais controversos. Paulinho Serra e Carolina Serra entregaram a rapadura de planos municipais desnecessariamente. E quando se age com precipitação na política, o custo pode ser elevado.
O Paço Municipal está estilhaçado. Há clara percepção de inimigos íntimos do prefeito que já se manifestou decidido a concorrer à reeleição. Gilvan Ferreira está imprimindo gestão claramente divorciada do antecessor em vários aspectos administrativos e de gerenciamento político. Gradualmente essa postura demarca o terreno de avaliação geral entre o prefeito que se foi mas quer voltar logo e o prefeito que mal esquentou a cadeira.
GOVERNADOR ADMIRADO
O governador do Estado, Tarcísio de Freitas, é um dos admiradores confessos de Gilvan Ferreira. Ainda outra noite, silenciosamente, manteve duas horas de reunião com Gilvan Ferreira no gabinete do prefeito de Santo André.
Diferentemente disso, a relação de Paulinho Serra com o governador não passaria de tolerável, diplomaticamente tolerável. A Paulinho Serra se atribui o rótulo de controverso e inconstante. Gilvan Ferreira seria o oposto. Ainda outro dia viralizou uma entrevista com o governador. O titular do Palácio dos Bandeirantes fez espécie de reprimenda a Paulinho Serra por conta de trapalhadas do tucano na disputa estadual. Paulinho Serra combinou uma estratégia com o governador mas não a cumpriu. De aliado Paulinho Serra passou a opositor. A situação ainda não se resolveu oficialmente.
Paulinho Serra sonha que alguns pontos percentuais de votos para governador virem moeda valiosíssima num segundo turno. Nada de novidade na política, como se sabe. Menos, claro, quando se sabe que Paulinho Serra foi ao governador e pediu socorro para reforçar o time de candidatos do PSDB a deputado estadual.
MANTENDO AFETIVIDADE
Conviria mergulhar na onda de especulações sobre o futuro político em Santo André. Como se sabe, o PT municipal é carta fora do baralho. O Partido dos Trabalhadores tem traço de audiência e não existe nada que possa ser chamado de oposição para valer. Esse domínio fez de Paulinho Serra, vereador sem brilho, secretário temporão do então prefeito petista Carlos Grana. O PT de Dilma Rousseff, presidente que comandou a maior recessão da história do Grande ABC, com perda de 22% do PIB regional entre 2014 e 2016, afundou a reeleição de Carlos Grana. Paulinho Serra saltou do governo Grana e, no PSDB, ganhou a Prefeitura como opositor petista.
Há um coquetel de desajustes circunstanciais que poderiam ganhar musculatura de incômodos e estariam afetando os nervos de Paulinho Serra. O principal, provavelmente, é que o sucessor Gilvan Ferreira vem dando conta do recado de comandar a Prefeitura. Mais que isso: faz incursões a vários setores. Inclusive como executivo público na esfera nacional, à frente da Comissão de Reforma Tributária da Frente Nacional dos Prefeitos.
Uma recente pesquisa do Instituto Paraná revelou que os eleitores de Santo André não sentem ausência de Paulinho Serra. A medição da temperatura de afetividade e de reconhecimento de resultados após apenas 15 meses de mandato é que o nível de aprovação de Gilvan Ferreira se manteve intocável em relação ao antecessor.
ALÉM DA CRONOLOGIA
Tudo indica que haveria mais águas de irritabilidade da família Serra em relação ao prefeito Gilvan Ferreira. Quem parece estar com os nervos à flor da pele é justamente o ex-inquilino do Paço Municipal. Tanto que a exposição pública de duas gravações para disseminar mensagens favoráveis ao casal Serra parece auto condenatória. Santo André tem saudade da família Serra – eis as mensagens ao casal Serra que o casal Serra propagou nas redes sociais. Elogios capturados com a destreza dos marqueteiros que embalaram uma Administração 96 meses.
A antecipação do calendário de votos à Prefeitura de Santo André é um erro mais que cronológico. É um tiro no pé entre outras razões porque sugere subliminarmente que tanto a vaga de deputada estadual quanto a vaga de deputado federal estão garantidíssimas. E que, portanto, seria perda de tempo deixar para depois de outubro o que pode ser costurado a partir de agora.
A decisão da Família Serra de antecipar a disputa pela Prefeitura de Santo André talvez tenha também um ingrediente de esnobismo de representatividade política. Paulinho Serra estaria tão convicto de que nada de braçadas fora do ambiente municipal e regional, depois de aproximar-se de caciques estaduais e federais como Gilberto Kassab e Aécio Neves, entre outros, que estaria se lixando para o grupo local que o embalou e o levou a duas vitórias eleitorais consecutivas. Somente Celso Daniel obtivera a façanha em Santo André.
ESTRABISMO POLITICO
Para um prefeito como Paulinho Serra que falhou durante todas as tentativas de regionalizar a imagem, conquistar o estrelato estadual e nacional é um diploma de consagração que tornaria os atores locais simples coadjuvantes.
Para reforçar essa constatação, não pareceria ao leitor que também é eleitor um caso de estrabismo político acreditar que bastaria o apoio dos caciques mais graduados da política para chutar a canela dos parceiros locais quando se sabe que nas disputas municipais o peso do municipalismo está muito acima do chão de estrelas mais reluzentes?
Ao dar o tiro de largada ou o tiro no pé, quando não o tiro pela culatra de que poderia espezinhar politicamente o prefeito que só chegou à Prefeitura porque tanto ele, Paulinho Serra, como os companheiros de grupo, assim o determinaram, o ex-prefeito estaria atingindo diretamente a cláusula pétrea de companheirismo interpartidário.
Um Gilvan Ferreira atingido provavelmente já registre o espalhamento de insatisfação. Ou alguém tem dúvida de que houve um ataque público ao atual prefeito quando o ex-prefeito e a mulher do ex-prefeito lançam as cartas da candidatura em 2028 com gestos, palavras e abraços de quem comemora antecipadamente o retorno ao Paço Municipal?
Talvez fosse interessante ao se observarem desarranjos mais explícitos, a tomada de consciência de cuidados com a louça em pedaços no assoalho de sala-de-jantar do divisionismo latente.
TROCAS ADMINISTRATIVAS
Seria natural que Paulinho Serra utilizasse a versão vitimista de quem supostamente teria sido traído. Gilvan Ferreira substituiu algumas peças do tabuleiro herdado e com isso reduziu o poder de fogo de Paulinho Serra na governança do Paço Municipal. Talvez Paulinho Serra tenha compreensão diversa do sentido de mudança de Administração mesmo entre aliados.
O que se pergunta sem que isso não deixe de ser cretinice avaliativa é o seguinte: que gestor público com ideias próprias, perfil próprio, destino próprio, abdicaria de promover mudanças nominais e filosóficas, por assim dizer, para mostrar à sociedade o quanto existiria de valor autoral na própria gestão, ao invés de uma cópia fiel e sem retoque do antecessor?
Gilvan Ferreira não passaria de um pau mandado e, mais que isso, de uma pinguela eleitoral, se decidisse seguir o receituário de Paulinho Serra. Talvez o pesadelo que retira Paulinho Serra do foco eleitoral desta temporada seja desconfiar de que Gilvan Ferreira faria uma gestão superior em diversos indicadores. Mais que isso: sem lançar mão da Secretaria de Efeitos Especiais que os marqueteiros de Paulinho Serra transformaram na mais prestigiada pasta da Administração.
POSTAGEM CONDENATÓRIA
O erro primário de Paulinho Serra não foi supostamente ter garantido previamente os elogios de eleitores que constam da gravação no fim de semana. Afinal, não precisaria de nada disso para se sentir querido por boa parte dos eleitores. Goste-se ou não dos 96 meses de gestão, Paulinho Serra saiu com prestigio popular. Paulinho Serra se converteu em sucesso absoluto de publico e bilheteria, menos da crítica mais exigente.
O equívoco de Paulinho Serra, na melhor das hipóteses em caso de espontaneidade dos eleitores saudosos que se manifestaram nos dois vídeos, foi dar corda às cenas no ambiente digital. A declaração enfática de Carolina Serra --- “A gente vai voltar”-- é auto esclarecedora. O casal Serra está mesmo com saudade do Paço Municipal muito além de uma noitada de festa junina.