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Administração Pública

DANIEL LIMA - 06/07/2026

Se você quer saber  se vale mesmo a pena Gilvan Ferreira mandar às favas todos aqueles que passaram anos e anos excomungando Celso Daniel, saiba que vale a pena sim. Só vai negar Celso Daniel como prefeito ponto fora da curva quem é doente ideológico ou capadócio juramentado.

Gilvan Ferreira enfrenta uma Santo André muito mais complexa do que há um quarto de século. Exatamente por isso tem uma missão que precisa destruir a corrente de mesmices dos antecessores de sobrenomes que não o auxiliariam em nada como fontes de inspiração. Distante disso.

Gilvan Ferreira não pode cair na armadilha que encapsulou os antecessores. O que eles fizeram? Jamais tiveram a coragem de assumir publicamente interesse em resgatar vários dos ativos de Celso Daniel. Os prefeitos que antecederam Gilvan Ferreira sempre observaram com temor a possibilidade de comparação. Um medo compulsivo de ter a imagem administrativa na mesma frequência do prefeito mais revolucionário da história de  Santo André  -- e do Grande ABC.

QUER OUTRO SOBRENOME?

É mesmo uma parada indigesta sugerir que a carreira promissoramente iniciante do prefeito Gilvan Ferreira, 33 anos de idade, seja de alguma forma inspirada na carreira do prefeito Celso Daniel, morto em janeiro de 2022 depois de nove anos de três mandatos?

O mais paradoxal de tudo isso é a conclusão extensiva a que chego agora: é uma baita roubada comparar Gilvan Ferreira que se está construindo com Celso Daniel que se foi. Mas a baita roubada também é, daí o paradoxo, uma excepcional oportunidade de livrar-se de farrapos administrativos pós- Celso Daniel.

Não bastasse dizer que o paradoxo é sim um ponto positivo, o raciocino reverso é o seguinte: valeria a pena Gilvan Ferreira ser comparado com os prefeitos sem brilho que o antecederam? Experimente voltar à manchetíssima aí em cima e retire Gilvan Daniel como a associação do passado de glórias administrativas e o presente de expectativas otimistas. Retire Gilvan Daniel e use o sobrenome de todos aqueles, pós-Celso Daniel, que o antecederam. Já imaginou?

PRECIOSIDADES PROGRAMÁTICAS

Vá lá que ao fim de potenciais dois mandatos a gestão de Gilvan Ferreira seja cotejada para consumar uma verdade que muitos ainda não entenderam: o seu antecessor, Paulinho Serra, foi o mais extraordinário case político de Santo André ao longo da história, embora tenha deixado a Prefeitura e a cidade como um todo em tudo quanto é indicador social, econômico, fiscal e tudo o mais muito aquém do necessário. Comprovadamente.

Como uma coisa não exclui a outra, diria que lançar olhos na gestão de Celso Daniel onde é possível rebocar ideia da gestão de Celso Daniel significaria que o potencial de elevar a qualidade da gestão em curso e quem sabe de um novo mandato seria ainda maior.

Traduzindo essa equação toda é o seguinte: como mostrei na última sexta-feira com a recuperação parcial do espólio administrativo de Celso Daniel em mais um capítulo da série Arca de Noé Contra o Gataborralheirismo, há preciosidades programáticas que não podem simplesmente ser jogadas no lixo porque supostamente estariam fora do tempo. Nada disso.

Adaptações poderiam colher resultados extraordinários, porque há ideias contra as quais o tempo não tem força suficiente para descaracterizá-las como exemplares.

O leitor vai ficar ainda mais perplexo com o paradoxo de acreditar em algo que se perdeu no baú da ciumeira e da incompetência dos sucessores de Celso Daniel. Basta, para tanto, ler na sequência tudo, praticamente tudo que se apresenta em Santo André nestes tempos quando confrontado com o começo de século, quando Celso Daniel foi assassinado. Houve, como se verá, piora sistêmica durante os 25 anos subsequentes. 

TUDO SE AGRAVOU

Vou explicar: quando Celso Daniel foi embora, tudo que deixou de obras, projetos e, principalmente,  de ideias municipalistas e regionalistas acabou se desviando de um roteiro de potencialidades transformadoras. Tudo virou uma maçaroca de passivos que Santo André (e o Grande ABC como um todo) acumulou em um quarto de século.

Ora, bolas, se essa é a verdade cristalina e insofismável, como então  esse idiota de jornalista, dirão os leitores, pretende sugerir ao prefeito Gilvan Ferreira atenção total de modo a que possa, quem sabe, apesar dos pesares, alimentar a fornalha de reformas em Santo André?

Foi a presença de Celso Daniel que tornou o ecossistema público, privado e social no Grande ABC uma bola de neve de entusiasmo por determinado período a partir do segundo mandato, iniciado em 1997. No primeiro mandato, entre 1989 e 1992, Celso Daniel, jovem de 40 anos, se perdeu entre o academicismo da social-democracia e o sindicalismo importado de São Bernardo.

TRÊS DIMENSÕES

Não bastasse a lista de complicações que se cristalizaram após o mandato interrompido de Celso Daniel reeleito com a maior votação relativa da história de Santo André, o jovem prefeito Gilvan Ferreira precisaria equilibrar uma tríplice tarefa como homem público.

Em primeiro lugar, dar equilíbrio às próprias ações de prefeito municipal. Em segundo lugar,  se virar nos trinta e ingressar para valer no comando do Clube dos Prefeitos a partir do ano que vem. Em terceiro lugar, mergulhar de cabeça na área de reforma fiscal do País estando na cúpula do setor da Frente Nacional dos Prefeitos.

Notaram os leitores que, mesmo sem lerem o que está mais embaixo (por falar nisso, mantenham em ordem decrescente os olhos disciplinadamente em cada parágrafo desse texto), o presente e o futuro de Gilvan Ferreira se apresentam em forma de desafios de alto risco?

Como assim, alto risco? Simples: é possível dar conta de todas as tarefas se Gilvan Ferreira contar com uma equipe de qualidade gerencial como Celso Daniel contava. O fracasso dos prefeitos de Santo André e da vizinhança para barrar os estragos da desindustrialização tem a mesma matriz: dificuldade de apurar o foco em Desenvolvimento Econômico.

Como seria possível fazer de Gilvan Ferreira uma esperança de dias melhores na Prefeitura de Santo André, dias que remetam, adaptações à parte, a algo suficientemente representativo a ponto de se iniciar uma longa jornada de recuperação de tudo que se agravou desde a morte de Celso Daniel?

Copiar Celso Daniel onde for possível não é outra coisa senão colocar no lombo de ganhos de escala o peão boiadeiro adestrado para escolher a jornada mais interessante.

UM OUTRO MUNDO

O mundo administrativo deixado por Celso Daniel era analógico. Em 30 anos o mundo mudou, mas há essências que podem gerar inovações metodológicas na forma de elevar tanto a governabilidade quanto a governança de Santo André. 

Gilvan Ferreira tem  a oportunidade de iniciar o que o antecessor contou com oito anos para adaptar, mas não fez outra coisa senão uma versão caricatural do programa mais envolvente de Celso Daniel.

É claro que estou falando sobre Santo André Cidade Futuro, que Celso Daniel e secretariado esculpiram juntamente com uma gama de representantes da sociedade produtiva de Santo André. Algo tão expressivo (leiam o capítulo de sexta-feira de Arca de Noé contra o Gataborralheirismo) que Paulinho Serra e seus marqueteiros transformaram na surdina em Santo André 500 Anos.

Sim, Santo André 500 Anos pegou carona em Santo André Cidade Futuro sem atribuir origem em Santo André Cidade Futuro, e, mais importante que isso, sem contar com profissionais habilitados à execução das medidas.

Para encurtar essa conversa sob o guarda-chuva de Gilvan Daniel, produzi correndo, correndo, uma breve lista de situações atuais que impactam diretamente a gestão de Gilvan Ferreira. 

LISTA PRELIMINAR

1. Ambiente macroeconômico mais gelatinoso.

2. Alternativas econômicas pós-desindustrialização mais complexas.

3. Ambiente externo municipal mais concorrencial.

4. Ambiente político esquizofrênico.

5. Ambiente econômico regional em permanente queda.

6. Ambiente institucional municipal e regional desmobilizado.

7. Ecossistema midiático multifacetado e dispersivo.

8. Sentimento de pertencimento em mergulho profundo.

9. Logística interna ainda atravancadíssima.

10. Logística externa comprovadamente fragilizada.

11. Robustez fiscal comprometida.

12. Distribuição socioeconômica assistencialista.

13. Classe média menos persuasiva na formação de opinião.

14. Carência de técnicos formuladores de mudanças econômicas.



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