GESTÃO DE TITE ALTERA
POLITICA EM SÃO CAETANO
A vitória de Tite Campanella nas eleições de outubro de 2024 está alterando ainda discretamente a estrutura de definição e distribuição de votos em São Caetano. O que parecia impossível está ganhando contornos mensuráveis. Os próximos tempos poderão esquadrinhar com mais exatidão algo que parece mais que um ensaio.
O ambiente político-eleitoral marcantemente conservador e convergente entre as forças políticas de São Caetano jamais alimentou a possibilidade de mudanças radicais. Tanto que o PT jamais chegou ao Palácio da Cerâmica. Mas há uma novidade a ser exposta e que tem nome e sobrenome histórico no processo de separação de São Caetano de Santo André, em meados do século passado: Tite Campanella.
Tite Campanella é mesmo uma novidade. São Caetano não dá espaço ao PT. O partido jamais ocupou diretamente a Prefeitura. O PT é apenas uma parte do todo, mas coadjuvante sem vocação a protagonista. Inclusive quando o PT dos tempos de glória de Lula da Silva na presidência da República transformou a região num potentado de esquerda. São Caetano de imigrantes europeus e o território de 15 quilômetros quadrados mais rico e municipalista do Grande ABC resistiu ao socialismo tropical petista.
SITUAÇÃO DIFERENTE
Entretanto, agora a situação parece diferente. São Caetano segue sem o PT e ainda mais consistente na manutenção do conservadorismo político, mar pelo andar da carruagem de posicionamentos antagônicos no campo conservador, a ruptura poderá se consolidar num futuro que tem a próxima eleição municipal, em 2008, como referencial mais provável.
E tudo isso tem a ver com a vitória eleitoral e a gestão de Tite Campanella. Está nos números de pesquisas.
Para entender essa movimentação de potenciais votos e de poder em São Caetano é preciso levar em conta o rompimento do prefeito Tite Campanella com o antecessor, o tetraprefeito José Auricchio Júnior, que o apoiou na disputa de 2024. O noticiário está repleto de provas provadas de que Tite e Auricchio já não frequentam o mesmo ambiente. A ruptura evidenciada no noticiário e nas redes sociais parece fortalecer a representatividade do governo de Tite Campanella.
JUNTANDO AS PEÇAS
A pesquisa do Instituto Paraná publicada ontem no Diário do Grande ABC mostra apenas uma parte dessa equação transformadora. A outra parte está em pesquisa do mesmo Instituto Paraná e no mesmo Diário do Grande ABC.
A garantia de que os efeitos de ruptura entre Tite Campanella e José Auricchio já aparecem nos dados estatísticos está na junção das duas pesquisas. A pesquisa publicada no Diário do Grande ABC de ontem e a pesquisa da edição de 17 de setembro de 2024. É indispensável que se coloquem as duas investigações em confronto para compreender com mais segurança o que se passa em São Caetano. Sem esse embate, a pesquisa de ontem não ultrapassaria os limites numéricos, ou seja, sem referenciais confiáveis e sustentáveis.
Vou expor os dados brutos das duas pesquisas e em seguida ingresso na explicação prática de uma São Caetano dividida sem levar em conta, repito, o PT que jamais teve fôlego para sensibilizar um eleitorado predominantemente de classe rica e de classe média tradicional. Tanto é verdade que o PT do ex-sindicalista Jair Meneguelli não chegou a 5% dos votos válidos na eleição de outubro de 2024.Vejam os dados, respetivamente de setembro de 2024 e de ontem do mesmo Instituto Paraná:
a) Em dezembro de 2024, José Auricchio encerrou o quarto mandato com aprovação de 70,1% e reprovação de 25,6% dos eleitores. Ontem, Tite Campanella apresentava aprovação de 67% e desaprovação de 29,7% dos eleitores.
b) Em dezembro de 2024, eleições encerradas, José Auricchio contava com avaliação de 17,3% de Ótima, 38,9% de Boa, 25,5% de Regular, 17,4% de Ruim e 10,5% de Péssima. Na pesquisa de ontem o prefeito Tite Campanella apresentava 8,1% de Ótima, 41,4% de Boa, 29% de Regular, 7,6% de Ruim e 11,7% de Péssima.
MUITA SEMELHANÇA
A análise sobre o primeiro quesito praticamente mantém Tite Campanella e José Auricchio ocupando a mesma faixa de aprovação e reprovação, quando se considera para efeitos de definição numérica a margem de erro de mais de três pontos percentuais. Basta verificar que enquanto Auricchio obteve 70,1% de aprovação e 25,6% de reprovação, Tite Campanella, 16 meses depois, registrou 67% de aprovação e 29,7% de reprovação.
Aparentemente, observando-se apenas o desempenho dos dois prefeitos mesmo que em períodos diferentes, e também em contexto diverso, não há nada que sinalizaria rompimento dos dois grupos políticos. Afinal, revelam-se dados tão próximos, em situação de empate técnico ou próximo disso que nada poderia indicar que estivesse em pleno desdobramento o distanciamento entre os dois políticos.
Mas é o segundo quesito de enfrentamento numérico das pesquisas do Instituto Paraná que se identificam alterações significativas entre os dados dos últimos dias de José Auricchio como prefeito de São Caetano e os 16 meses de Tite Campanella.
DADOS EM DETALHES
Quando se somam os 17,3% de Ótima e os 38,9% de Boa da gestão de José Auricchio, chega-se a 56,2% dos eleitores. No caso de Tite Campanella, a soma de 8,1% de Ótima e 41,4% de Boa resulta em 49,5%. Portanto, são seis pontos percentuais, o que significa levemente fora da margem de erro.
Nas métricas seguintes, a situação se inverte, agora com vantagem de Tite Campanella. José Auricchio recebeu em dezembro de 2024 o total de 25,5% de Regular, 17,4% de Ruim e 10,5% de Péssima. Os números de Tite são bem melhores: 29% de Regular, 7,6% de Ruim e 11,7% de Péssima. A soma dos três fatores de José Auricchio totaliza 53,4%, enquanto no caso de Tite Campanella são 48,3%.Ou 5,1 pontos percentuais de diferença. Também fora da margem de erro.
Ou seja: entre o fim do segundo mandato consecutivo de José Auricchio e os primeiros 16 meses de mandato de Tite Campanella, numa avalição estritamente numérica como base a conjecturas distintas, o atual prefeito detém uma base mais sustentável de votos apoiada no tripe formado por avaliações Regular, Ruim e Péssima muito menos negativa do que a registrada por José Auricchio. Tite Campanella teria uma força-motriz mais apropriada para elevar a cotação em direção ao topo de gestão Ótima e Boa. Seria algo como uma casa com infraestrutura mais sólida e, portanto, mais resiliente.
RISCOS EMBUTIDOS
Tentar entender o movimento das pedras eleitorais e de avaliação qualitativa de gestão tendo esses dados como fonte de análise carrega um risco natural, porque as duas etapas de pesquisas do Instituto Paraná são temporalmente distintas, mas nem por isso deixam de revelar a cisão do eleitorado, que é permanentemente conservador.
Transparece a impressão de que os eleitores mais fieis de José Auricchio decidiram ser mais rigorosos na avalição do ex-aliado e sucessor Tite Campanella, enquanto os eleitores de Tite Campanella resolveram colocar a gestão do antecessor sob escrutínio mais cáustico. É uma espécie de chumbo trocado.
O que se poderia depreender desses dados conjugados e de condicionantes já mencionadas é que o atual prefeito teria menos restrição em relação ao antecessor. Situação que poderia ser negada num contraponto lógico porque o índice de aprovação e de reprovação é praticamente o mesmo.
LONGEVIDADE DE GESTÃO
Mas o componente temporal parece agir em favor de Tite Campanella. Afinal, são apenas 16 meses de um mandato enquanto José Auricchio amealhava dois mandatos de quatro anos seguidos, ou 15 anos no comando municipal desde que sucedeu ao lendário Luiz Tortorello no começo deste século. A dominância do grupo de José Auricchio, do qual Tite Campanella sempre fez parte, só foi interrompida em 2012 com a vitória do oposicionista circunstancial e também conservador Paulo Pinheiro, com suporte do Partido dos Trabalhadores por baixo dos panos. Um triunfo sem longevidade como divisão dos conservadores.
De fato, José Auricchio dirigiu São Caetano pós-passagem de Paulo Pinheiro durante sete anos de dois mandatos. Tite Campanella, então presidente do Legislativo, assumiu o cargo de Chefe do Executivo durante afastamento judicial de Auricchio no primeiro ano do quarto mandato, em 2021.
Os próximos tempos prometem ser instigantes na política de São Caetano. A cidade mais conservadora da região comprovou mais uma vez nos dados do Instituto Paraná que não existe espaço competitivo para a esquerda. Tanto que Lula da Silva e Fernando Haddad apanham feio de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Resta saber qual dos agora dois blocos de conservadores vão avançar mais. Quanto mais aprovação a Tite Campanella, menos distância do antecessor se consolidaria no topo da avaliação qualitativa. A recíproca é verdadeira tanto num caso quanto no outro.
A longevidade no cargo que parece ter-se constituído fator de aprovação constante a José Auricchio poderá sofrer os efeitos dos tempos futuros de exclusão do poder e, diversamente, favorecer o atual prefeito? Façam suas apostas. E não esqueçam de considerar uma contradição nisso tudo: como São Caetano decide o cargo de prefeito em turno único, supostamente o PT poderia aproveitar-se da divisão para ganhar fôlego. Precisaria, entretanto, de ingestão cavalar de complexo vitamínico eleitoral. O drama é que o PT é muito menor que Lula da Silva também em São Caetano. O municipalismo do voto prevalece.
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