ECONOMIA TRANSFORMA
VOTO EM SÃO BERNARDO
Essa análise tem mais de especulação do que qualquer outra coisa, mas não é porque tem menos de qualquer outra coisa e mais de especulação que deva ser desconsiderada. Até porque, convenhamos, especulação comporta subjetividades interpretativas com possibilidade de ganhar veracidade. Tanto que a uso como instrumento defensivo. Por mais forrado de razões que eventualmente esteja, porque estatísticas e realidade social assim determinam, há sempre uma porção de imponderabilidades que deve ser respeitada.
Me deu na telha ontem à noite, diante da pressão do tempo, tentar explicar o que se passa em São Bernardo com o voto municipalista. E tudo tem uma origem: uma brevíssima conversa informal com um amigo sobre a São Bernardo destes tempos, após tantas mudanças econômicas, sociais e políticas nas últimas quatro décadas.
Resumo: temos três pedaços de São Bernardo no mesmo território de São Bernardo quando se trata de perfil eleitoral. Considere-se perfil eleitoral o conjunto de eleitores e respectivos compartimentos socioeconômicos.
TRÊS PEDAÇOS
A polarização em São Bernardo e em todos os municípios de um Brasil dividido politicamente não vale necessariamente para as disputas municipais, mas em São Bernardo o buraco de diferenças é muito mais embaixo. Parto de imediato para os finalmente para, em seguida, ir ao detalhamento.
A primeira São Bernardo eleitoral é a São Bernardo sindicalista em processo político cada vez mais desgastante quando se trata de disputas locais, especialmente para a chefia do Executivo.
A segunda São Bernardo eleitoral é a São Bernardo de classe média e rica, também cada vez menos numerosa em termos absolutos e relativos.
E a terceira São Bernardo eleitoral é a São Bernardo assistencialista, que dança conforme a onda do momento, separando-se dos dois estratos antagônicos que a fortaleceram e também alimentam as engrenagens de crescimento incontrolável.
Essa coreografia socio-eleitoral de pesos relativos distintos, mas expressivos na contabilidade geral, é exclusividade de São Bernardo por força de transformações que a tornam reduto econômico em profunda e dramática ebulição.
Não existe no Grande ABC – e vamos ficar nessa geografia – nada tão configurado em termos de divisionismo político nas disputas para prefeito. E esse é um fenômeno recente que possivelmente ainda não despertou os mais interessados a interpretações que podem mudar os rumos da política local.
Quem pensou em Diadema como algo semelhante a São Bernardo está equivocado. Diadema conta com classe conservadora de ricos e classe média inexpressiva.
Para ser mais preciso diante dos fatos já consumados, possivelmente esse Triângulo das Bermudas política que também é um Triângulo das Bermudas econômica já foi detectado (ou seria muita coincidência) e, mais que isso, explorado pelo grupo que levou Marcelo Lima ao topo do Paço Municipal de São Bernardo.
Como temos provado com dados cristalizados em forma de PIB de Consumo, especialidade da Consultoria IPC, São Bernardo sofreu duros reveses no acumulado de riquezas em forma de salários, aposentadorias, poupança e tudo que possa ser traduzido como sustentabilidade financeira dos moradores. A desindustrialização acelerada está na raiz.
TOPO AVARIADO
A classe rica e a classe média tradicional de São Bernardo sofreram duros golpes. Na maior fatia desse bolo constavam empreendedores de pequeno e grande porte, profissionais liberais, trabalhadores de gravata do topo de hierarquia principalmente do setor automotivo e de autopeças, além de famílias tradicionais de imigrantes.
A mobilidade social dessa turma foi para o beleleu. A maioria constava do espectro conservador na régua de identificação social e política. Os votos dessa turma eram predominantemente antipetistas. Não na proporção de Santo André e de São Caetano, formatadas sem tanta presença sindical, mas mesmo assim prevalecentemente conservadores.
No outro extremo de representatividade política constavam tudo que explicaria a gênese do sindicalismo, que, desde os anos 1970, próximo a 1980, passou a desbravar as entranhas de combate ao capital. Os sindicalistas ganharam tração com a ascensão do PT em nível federal e chegaram ao Paço Municipal duas vezes diretamente com Luiz Marinho. Com isso, assumiram posição de confronto direto com os conservadores, inclusive com a absorção de camadas próximas tanto do centro quanto de centro-esquerda.
PERDAS E GANHOS
O terceiro vértice desse triângulo de eleitores é a soma proporcionada tanto pela redução da representatividade dos conservadores como pelo declínio do sindicalismo na medida em que a Economia de São Bernardo se lascava por depender demais da indústria automotiva.
Os trabalhadores de fábricas sentiram reveses diretos e indiretos, tanto na forma de evasão industrial quanto de decepções com os resultados do PT Federal em diversas frentes de combate no campo econômico e de moralidade no uso de dinheiros públicos.
Chamaria esses eleitores de algo que os colocariam distantes do fervor conservador e também menos suscetíveis à doutrinação socialista de nossos sindicalistas. Que identificação seria mais apropriada? Talvez e certamente nada mais adequado que um estrato pragmático, que, entre o ambiente polarizado no País e os interesses próprios de qualidade de vida local, ou de necessidades básicas de cidadania, prefere mil vezes a segunda alternativa.
O prefeito Marcelo Lima ganhou as eleições de 2024 ao passar por cima de obstáculos como um trator exatamente porque estava em sintonia fina com o eleitorado pragmático, maioria nas três São Bernardo que coexistem. Marcelo Lima e os geniais marqueteiros contratados no Nordeste, colocaram o ovo da lógica em pé: a massa de eleitores populares e longe de doutrinação ideológica vagava em meio à tempestade que abateu conservadores e trabalhistas. Uma faixa tão larga que o catapultou à ribalta de sucesso considerado improvável.
VOTOS PRAGMÁTICOS
Portanto, para superar o deputado federal Alex Manente no segundo turno das eleições de 2024, Marcelo Lima contou com votos pragmáticos de uma divisão social que nem flerta com o sindicalismo nem está próxima dos conservadores de classe rica e de classe média. São um extrato socioeconômico que chamo de classe média vulnerável e que tem um pé na canoa de pobres e miseráveis e ou outro pé nas beiradas da ilusão que sonha em virar classe média tradicional.
Não bastasse tudo isso –não custa lembrar que a classe média vulnerável de São Bernardo representa 53% do total das famílias – o vitorioso Marcelo Lima ainda contou com o suporte de parte da classe sindicalista avessa a qualquer situação que lembre direita conservadora.
Alex Manente ficou à deriva na disputa final. Uma consequência natural de quem se comportou ao longo dos tempos como pretenso concorrente de centro-esquerda. Uma besteiragem ideológica que ajuda a explicar por que jamais chegou ao Paço Municipal como anfitrião, sempre a reboque do prefeito eleito, seja Luiz Marinho, seja Orlando Morando.
MENOS E MAIS
O futuro político-eleitoral em São Bernardo, mais do que qualquer outro endereço da região, está atreladíssimo a situações locais sem que essa constatação desclassifique desencadeamentos políticos e econômicos principalmente federais em qualquer tipo de disputa eleitoral.
Quando o universo de votos se restringe ao Município, apenas ao Município, o diagrama é outro. Os conservadores e os trabalhistas serão cada vez menos representativos nas urnas ao Executivo. Os apelos comuns à direita e à esquerda se subordinarão à perspectiva local de resoluções factíveis tendo o Paço Municipal como endereço mais confiável e sensível às demandas. O assistencialismo prevalecerá.
Para o leitor ter ideia de como devo estar navegando por águas plácidas de interpretação, basta sugerir que na próxima disputa os candidatos se identifiquem mais com as bandeiras da direita e do trabalhismo. Acho que os resultados seriam péssimos.
Se nestas alturas do campeonato já existe subjacente, quanto não explícita, a condição de ônus por conta da repercussão provocada pela polarização nacional, imaginem então se houver o acoplamento desse perfil como expressão principal de candidaturas. Nada seria mais contraproducente.
COREOGRAFIA ELEITORAL
O assistencialismo passou a fazer parte da coreografia eleitoral de São Bernardo com intensidade e profundidade. Os estragos da desindustrialização e o envelhecimento da população estão na linha de frente das mudanças impostas.
Parece que a missão tanto à direita quanto à esquerda do espectro político é um tanto quanto desestimuladora a qualquer banda dos extremos. O terço nacional de suposta neutralidade do eleitorado num ambiente polarizado também seria desprezado como fonte segura de votação municipal.
Por isso, ao que tudo indica, cada vez mais vai valer o peso ascendente do eleitorado municipalista, fugindo-se, portanto, da nacionalização do ambiente de embates.
Nada muito diferente do que temos hoje, na realidade, mas, no caso de São Bernardo, como os extremos sociais são inviáveis sem o grupo relativamente majoritário de pragmatismo local, tudo indicaria que a massa eleitoral representada pelo assistencialismo de políticas públicas de Marcelo Lima teria um caminhão de vantagem.
Nem a classe média e a classe rica predominante à direita e tampouco o esquerdismo da classe trabalhista sobreviveriam nas urnas. Há mais de 200 mil residências de classe média precária, de pobres e miseráveis no conjunto de 300 mil moradias de São Bernardo. Não há como deixar de considerar o bolso assistencialista e os sonhos de infraestrutura social e material numa cidade em que as demandas coletivas atropelaram a capacidade de atendimento. A bola de neve cresce cada vez mais.
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