TRÊS CIDADES PARA
A REGIÃO INVEJAR
A propósito da derrocada do PIB Industrial neste século no Grande ABC, e da projeção de gravidade ainda maior quando esta década terminar, tenho três exemplos que, isoladamente ou conjugados, deveriam servir de inspiração regional. Guarulhos, Jundiaí e Sorocaba.
Independentemente da possibilidade de mixagem estratégica que poderia reunir as maiores qualidades desse trio vitorioso no mesmo período em que afundamos ainda mais no principal ramal econômico, porque cada endereço reúne respectivas características, esta mensagem tem significado específico: sempre é possível reagir no setor mais relevante ao equilíbrio social. É preciso, portanto, sair da pasmaceira de espectadores frios e anestesiados de um horizonte cada vez mais estarrecedor.
É isso mesmo: um horizonte estarrecedor. Poderia grafar o verbete tanto em letras maiúsculas quanto obedecendo a ordem silábica, ou mesmo com ambas as formas, deste jeito: ES-TAR-RE-CE- DOR.
Guarulhos, na Grande São Paulo, Jundiaí , próxima da Grande São Paulo, e Sorocaba, no Interior do Estado, deveriam ser capturadas pela sensibilidade de autoridades públicas e de lideranças empresariais cada vez mais ficcionais para tentarem entender o que se passa no Grande ABC perdedor insuperável em participação relativa e participação absoluta na geração de riqueza industrial, comprovadamente a atividade que mais gera empregos de qualidade e faz girar o motor de tração da Economia como um todo.
São raros os endereços municipais que descartam a indústria como a mais abrangente fonte de prosperidade. Caso da Capital do Estado, nossa vizinha São Paulo, cinderela que nos leva a autopiedade de gataborralheirismo. São Paulo tem Economia diversificada, com comércio e serviços de valor agregado que ó mesmo capitais pujantes exibem.
Selecionei por acaso Guarulhos, Jundiaí e Sorocaba para mostrar o quanto poderia explicar a perda de competitividade de nosso setor industrial cada vez mais fragilizado com deserções e desativações.
Poderia buscar no mapa do PIB Industrial Paulista mais três dezenas de cidades de grande e médio porte econômico para comprovar o que a própria média estadual, que revelei ontem, esfrega em nossas fuças: ficamos para trás na geração de riqueza industrial e por conta disso precisamos encontrar saídas urgentes. Saídas que passam, evidentemente, por ações de integração regional que não se limitem a autoridades eleitas, mas que tenham nas autoridade municipais eleitas a propulsão de compromisso com o futuro. Exatamente o que faltou ao conjunto e às individualidades de prefeitos que desfilaram neste século apatia em enfrentar o touro bravo da desindustrialização.
CONFRONTO INCÔMODO
Mostrei ontem com densidade de dados e argumentos que o Grande ABC está se dando mal demais na condução do PIB Industrial desde que este século começou. Projetei o que teremos em 2030, no fechamento da terceira década. Perderemos monumental participação relativa também, além dos mais de R$ 10 bilhões registrados em 2021 quando comparado com a base estatística de 1999.
A participação relativa do setor industrial no Grande ABC cairá de 47,06% em 1999 para algo em torno de 15% em 2023. Em três décadas, um rombo inimaginável. Pior que isso, muito pior que isso, tremendamente pior que isso, somente o congelamento de qualquer reação. Mais que isso, para corrigir a frase, diria que o congelamento reativo é alarmantemente pior porque o feixe de triunfalismo sempre negou o desastre denunciado por este jornalista em março de 1990, no lançamento da revista de papel LivreMercado, predecessora deste CapitalSocial.
Já imaginaram os leitores se os sete municípios do Grande ABC que perderam mais de R$ 10 bilhões de PIB Industrial neste século (sempre se levando o montante o prisma de ponta a ponta, ou seja, sem considerar as perdas nos anos intermediários dos dois polos temporais) caso obtivesse o resultado de crescimento médio de Guarulhos, Jundiaí e Sorocaba?
VIRADA DO JOGO
Querem saber a diferença consumada entre o Grande ABC e o que chamaria de G-3? Pois vamos aos dados. Sente-se na cadeira para evitar contratempos.
Em 1999, o Grande ABC contava com PIB Industrial 37,09% superior à soma dos valores de Guarulhos, Jundiaí e Sorocaba. Vinte e dois anos depois, o G-3 passou à frente e se tornou 4,12% superior ao Grande ABC. Sempre é possível imaginar uma leitura obtusa desses resultados. Algo como o fato de termos PIB Industrial praticamente igual à soma de Guarulhos, Sorocaba e Jundiaí. As curvas de desempenho contrastantes, para cima e para baixo, são o encaixe do drama regional. Basta imaginar os ônus sociais provocados por esse desbalanço.
Em números monetários, a situação que tínhamos em 1999 era a seguinte: Sorocaba, Guarulhos e Jundiaí somavam R$ 7.959,19 bilhões de produção industrial, ante os anunciados na edição de ontem R$ 12.652,19 bilhões do Grande ABC. Já em 2021, dados mais atualizados pelo IBGE retardatário, o Grande ABC registrava R$ 38.503,71 bilhões, enquanto o G-3 contabilizava R$ 40.157,76 bilhões.
Está clarificada a disparidade dos resultados entre os dois blocos. O PIB Industrial de Guarulhos, Jundiaí e Sorocaba teve crescimento nominal, sem considerar a inflação do período, de 404,54%, portanto muito acima da inflação de 285,26%. O Grande ABC, como mostrei ontem, cresceu nominalmente apenas 204,32% no período. Bem abaixo da inflação, portanto. Mais que bem abaixo: muito abaixo do G-3. Praticamente a metade, para ser mais preciso.
MENOS É MAIS
Há uma vertente interessante no comportamento industrial e econômico de Guarulhos, Sorocaba e Jundiaí que confirma uma das teses que elaborei ontem: a perda de participação relativa do setor industrial ante o conjunto das atividades que compõem o PIB Geral (indústria, comércio, serviços, construção civil e agropecuária) não significa necessariamente que a atividade produtiva nas fábricas deu-se mal. Não é bem assim. Desde que não sejam os sete municípios do Grande ABC os exemplos de resistência.
Apesar de Guarulhos, Sorocaba e Jundiaí terem gerado nos 22 anos deste século (sempre na comparação ponta a ponta) nada menos que um ganho de PIB Industrial de R$ 9.494,19 bilhões (ante o mais de R$ 10 bilhões de prejuízo do Grande ABC), o setor produtivo daqueles municípios perdeu participação relativa.
Sorocaba contava em 1999 com 41,80% de participação relativa do PIB Industrial, mas caiu 22 anos depois para 25,63%. Ou seja: Sorocaba tem praticamente o mesmo percentual de atividade industrial que a média do Grande ABC. A diferença é que é uma economia em ascensão permanente e com plantas industriais mais inovadoras e diversas coloca lenha na fornalha das demais atividades, que geram mais riqueza. O PIB Industrial de Sorocaba em 1999 registrava R$ 1.746,38 bilhão (ante, por exemplo, R$ 2.256,54 bilhões de Santo André). Já em 2021, o PIB Industrial de Sorocaba saltou para R$ 11.416,52 bilhões (ante R$ 7.782,62 bilhões de Santo André).
Já no PIB Geral, que inclui todas as atividades, o PIB de Sorocaba registrava em 1999 o total de R$ 4.177,43 bilhões (ante R$ 5.954,25 bilhões de Santo André). Na outra ponta, em 2021, enquanto o PIB Geral de Sorocaba registrava R$ 44.533,40 bilhões, o PIB Geral de Santo André não passava de 32.620,29 bilhões.
DISPUTA PROPOSITAL
Promovi o confronto de propósito. Santo André e Sorocaba têm praticamente o mesmo volume de habitantes, perto de 700 mil. Como se verifica nos dados, a diferença está no fato de Santo André ter registrado ao longo de 22 anos um crescimento nominal de 244,89% no PIB Industrial e de 447,85% no PIB Geral, enquanto Sorocaba marcou crescimento também nominal de 553,72 no PIB Industrial (mais que o dobro de Santo André) e 966,05% no PIB Geral (mais que o dobro de Santo André).
Jundiaí também obteve crescimento nominal muito acima de qualquer Município do Grande ABC ou do conjunto dos municípios do Grande ABC. Entre 2000 e 2021, sempre com base em 1999, Jundiaí obteve crescimento nominal de 505,67% no PIB Industrial e 1.260,03 no PIB Geral. O que era PIB Industrial e de R$ 1.931,81 bilhão em 1999 passou para R$ 11.700,44 bilhões em 2021. E o que era PIB Geral de R$ 4.382,18 bilhões em 1999 virou R$ 57.670,89 bilhões em 2021.
Guarulhos, vizinha do Grande ABC na metrópole da Grande São Paulo, cresceu abaixo de Sorocaba e Jundiaí, mas muito acima do Grande ABC. O PIB Industrial avançou 298,05% no período ponta a ponta, enquanto o PIB Geral cresceu 617,56%. O PIB Industrial de 1999 de R$ 4.281,00 bilhões passou para R$ 17.040,80 em 2021. Já o PIB Geral passou de R$ 10.783,26 bilhões em 1999 para R$ 77.376,47 bilhões em 2021.
Nota-se que o PIB Industrial da diversificada Guarulhos em 1999 (R$ 4.281,00 bilhões) era um pouco inferior ao PIB Industrial da automotiva São Bernardo (R$ 5.519,13 bilhões), enquanto em 2021 o PIB Industrial de Guarulhos (R$ 17.040,80 bilhões) superou com certa folga São Bernardo, que registrou R$ 13.216,25 bilhões.
Já no PIB Geral, Guarulhos registrou R$ 10.783,26 bilhões em 1999 e saltou para R$ 77.376,47 bilhões em 2021. No caso de São Bernardo, o jogo estava praticamente empatado em 1999, mas na ponta de 2021 Guarulhos acumulou vantagem de quase R$ 20 bilhões. Ou seja: enquanto a Doença Holandesa Automotiva destroçava a Economia e a população de São Bernardo, Guarulhos conseguiu a façanha de sustentar-se. Imaginam os próximos tempos quando Guarulhos será ainda mais beneficiada pela logística do trecho Norte do Rodoanel, prestes a ser inaugurado. Será um massacre que se estenderia por muito tempo porque o Grande ABC está encalacrado em mobilidade urbana interna e externa, com o presente de grego entregue pelo governo estadual em forma de Rodoanel nos trechos Oeste e Sul.
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