QUANDO A EMENDA É
PIOR QUE O SONETO
A troca de secretário de Desenvolvimento Econômico em São Bernardo, com a saída de Rafael Demarchi (dos alucinantes 100 mil empregos em quatro anos) e a entrada de Mauro Miaguti (comprovadamente alheio às catástrofes econômicas locais) tem-se revelado, para surpresa de ninguém que conhece tanto um quanto outro, uma verdadeira substituição do roto do despreparado pelo rasgado da mistificação.
Rafael Demarchi deixou recentemente o cargo que jamais deveria ocupar para concorrer a deputado federal com possibilidade enormes de não chegar a cinco mil votos. Mauro Miaguti entrou como tapa-buraco já conhecido de guerra. Há muito está à frente do Ciesp local sempre alheio às grandes sacolejadas econômicas de São Bernardo e da região.
Alguma dúvida sobre isso? O melhor teste de veracidade é caçar na Internet alguma coisa crítica que Mauro Miaguti tenha dito sobre a maior recessão da história do Grande ABC, os últimos anos do governo Dilma Rousseff. E o massacre de Fernando Henrique Cardoso que liquidou com quase todo o estoque de autopeças familiares da região ao jogá-las na cova dos leões de competitividade internacional sem gradualismo e protegendo aos montadoras de veículos?
INTERROGAÇÕES
Todas as catástrofes econômicas que vivemos nas últimas décadas foram mesmo e, repito, acompanhadas praticamente em silêncio por Miaguti. Não é fácil praticar a arte da omissão e continuar prestigiado nos poderes públicos e empresariais. Talvez seja exatamente por isso que Mauro Miaguti chegou ao cargo que chegou para fazer o que sempre fez, cujo resumo da ópera no léxico não passa de quatro letras que se juntam em forma de nada.
A reportagem publicada no Diário do Grande ABC de hoje sobre a chegada de mais um gigantesco invasor do comércio eletrônico em São Bernardo, a mega unidade do Mercado Livre no Bairro Batistini, ocupando 100 mil metros quadrados, desnuda o quanto Mauro Miaguti transita entre duas interrogações que podem ser transformadas em constatação contundente.
A primeira interrogação é no sentido de saber o que empresário privado Mauro Miaguti faz na atividade empresarial que ocupa a ponto de não reconhecer as próprias limitações logísticas de produtividade de São Bernardo na disputa com concorrentes muito mais bem instalados na guerra por investimentos e produção.
A segunda interrogação é tentar saber os motivos que levam o agente público Mauro Miaguti a dar declarações tão estapafúrdias e em muitos pontos desanimadoras para quem tem esperança de ver um Grande ABC reativo à desindustrialização consumada e agora ainda mais ameaçadora com a chegada dos chineses automotivos e as máquina eletrificadas ao sabor de dumping social.
Agora, no terceiro estágio pós-questionamentos, chegaria este jornalista à conclusão de que Mauro Miaguti, velho de guerra nas lides empresariais e de proximidades político-partidárias, age com a naturalidade dos insensatos ao colocar numa plataforma de normalidade a chegada de novo centro logístico.
CONFORME ENCOMENDA
Estaria Mauro Miaguti esmerando-se na arte de salamaleques e de interesses opostos ao que defino como responsabilidade social de quem ocupa cargo público? Estaria Mauro Miaguti aperfeiçoando metodologia de articulação social e empresarial para legar às próximas gerações de empreendedores um manual de como ocupar todos os espaços e não resolver absolutamente nada?
Aliás, com essa prática, e a bem da verdade, Mauro Miaguti não estaria abrindo o placar de sofisticação de inutilidade institucional. Estaria mesmo repetindo uma velha prática regional, quando não nacional.
Mauro Miaguti, o comandante da pasta que deveria ser a mais importante do organograma da Prefeitura que representa a maior Economia do Grande ABC, age deliberadamente como propagandista de uma farsa provavelmente para agradar ao chefe do Executivo e de olhos puxados em direção aos próprios interesses pessoais e corporativos.
MUITO DESANIMADOR
Mauro Miaguti mal sabe ou, diferentemente, sabe muito bem o quanto é prejudicial à sociedade regional na medida em que despreza o ambiente de empobrecimento coletivo com fundas consequenciais sociais a ponto de os chefes dos Executivos terem de correr todo o santo dia atrás de paliativos.
É desanimador, acreditem os leitores, expressar essa avaliação quase 40 anos depois de criar a revista de papel LivreMercado sucedida por esta revista digital. Vá lá que nos anos 1990 houvesse engabelação geral de que o Grande ABC industrial e econômico era uma maravilha intocável. Sei o que passei em procurar com provas estatísticas e factuais que a verdade já era outra.
Agora, sinceramente, quase 40 anos depois da primeira edição daquela revista, e de milhares de análises sob o guarda-chuva chamado regionalidade, é triste, broxante e tudo o mais constatar o quanto um dirigente público com lastro empresarial se dirige ao público com um encadeamento de deformidades informativas.
O pior de tudo (e para poupar encavalamento reproduzo a reportagem do Diário do Grande ABC logo abaixo) é que Mauro Miaguti mostra-se tão precariamente pobre de observações que confunde logística de produção com logística de consumo. Aliás, não é o primeiro nem será o ultimo a cometer esse delito conceitual. A ignorância associada à gulodice institucional provoca arrepios.
DUAS LOGÍSTICAS
Ao se referir à suposta competitividade logística de São Bernardo, vizinha da Anchieta, Imigrantes e Rodoanel, Mauro Miaguti despreza o esvaziamento econômico regional porque há outros competidores muito mais qualificados. Sem contar, claro, aspectos paralelos que influenciam decisões do empresariado. O ambiente econômico do Grande ABC decadente combinado com o ambiente de um ecossistema metropolitano em transe reflui eventuais interesses.
Mesmo nesse ambiente metropolitano em deterioração, Osasco e Barueri entre outros municípios do Grande Oeste, e a Grande Norte de Guarulhos e vizinhança, já nos superaram em PIB com certa facilidade entre outras razões porque o Rodoanel foi um presente divino retirado das vísceras do Grande ABC decadente em logística industrial.
Logística industrial é uma batalha perdida pelo Grande ABC encalacrado entre inúmeros fatores de competitividade. Já a logística interna, que é de fato o ponto nuclear à chegada das grandes plataformas de comércio eletrônico, também é um vetor de baixa qualidade do Grande ABC cortado e recortado administrativamente ao longo do século passado e, com isso, sem qualquer planejamento espacial que conferisse unicidade organizacional.
MUITO DIFERENTE
Somos um bicho de sete cabeças e, como um bicho de sete cabeças, fracassamos ante a constatação prática de que cada cabeça é uma sentença de incompletudes também logísticas.
Mais uma vez vou repetir que a chegada dos grandes players do comércio eletrônico ocorre justamente porque contamos com uma riqueza de consumo de quase três milhões de habitantes numa área metropolitana fantástica para quem precisa de densidade demográfica.
Os centros logísticos chegam sob a tutela do conceito de última milha, que consiste em dar um nó no embaralhamento logístico interno com o uso de veículos de pequeno porte para atender à clientela.
O futuro vai provar, como se o presente já não indicasse o estrago, o quanto os pequenos negócios de comércio sofrerão com a chegada de invasores digitais.
EMPREGOS E EMPREGOS
É do jogo de competitividade econômica? Claro que sim. Mas nem por isso devemos nos calar e tampouco, como se verá logo abaixo, aceitar que um representante graduado de uma das principais economias municipais do País seja tão negligente e subserviente, quando não ignorante.
Os empregos anunciados agora para atender à demanda de comércio eletrônico de última milha têm uma contrapartida nefasta ignorada por todos que se encantam com apenas um lado da moeda de responsabilidade social: a cadeia desorganizada e intensamente tributada de pequenos negócios de varejo familiar perderá ainda mais participação econômica com fechamentos de portas e escalada de demissões.
Vivemos um mundo cruel. Mas o secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo prefere mesmo o ilusionismo despudorado. Jamais poderia acreditar que, depois do fracasso antecipado de Rafael Demarchi dos 100 mil empregos em 48 meses do primeiro mandato do prefeito Marcelo Lima, teríamos um substituto envolto pela credibilidade de uma das ramificações da Fiesp e, por isso mesmo, pronto para resistir como ativo de mudanças.
DIÁRIO DO GRANDE ABC
Acompanhem na sequência a reportagem do Diário do Grande ABC de hoje. Mauro Miaguti é um exemplo para não ser esquecido:
Novo centro logístico do Mercado Livre em São Bernardo inicia operações em agosto
O novo centro logístico do Mercado Livre, gigante do setor de marketplace, iniciará parte das operações em agosto, no bairro Batistini, em São Bernardo. Os dois galpões somam 100 mil metros quadrados. O funcionamento completo da unidade deve começar em até três meses, conforme estimativa da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Juventude. Para acelerar as contratações, a Prefeitura promove nesta sexta-feira (24), das 9h às 16h, no Ginásio Poliesportivo Adib Moysés Dib, um mutirão de empregos com 1.040 vagas exclusivas para a companhia.
Ao todo, a empresa prevê a criação de 1.300 empregos diretos na unidade. Há também expectativa de que a operação impulsione as atividades no entorno, ligadas ao transporte de cargas, ao comércio e à prestação de serviços. “Serão mais de 1.000 pessoas recebendo salário e movimentando a economia local. Além disso, transportadoras, caminhoneiros, carregadores e entregadores acabam sendo favorecidos pela nova operação”, afirma o secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Juventude, Mauro Miaguti.
Segundo ele, o cronograma de funcionamento dependerá da conclusão das contratações. “O processo de recrutamento já começou. A expectativa é que, no máximo, em dois ou três meses, a operação esteja funcionando 100%.”
Para Miaguti, a escolha de São Bernardo para receber o empreendimento está relacionada à posição estratégica do município no sistema viário paulista. A proximidade com as rodovias Anchieta, Imigrantes e Rodoanel, assim como com o Porto de Santos e o Aeroporto Internacional de Guarulhos, facilita o escoamento da produção e a distribuição de mercadorias para diferentes regiões do Estado e do País.
“O Mercado Livre reconheceu que São Bernardo oferece um ambiente favorável para novos empreendimentos. Nenhuma empresa faz um investimento desse porte sem segurança jurídica e infraestrutura adequada. Nossa localização é um diferencial importante.”
Apesar do fortalecimento do setor logístico, Miaguti afirma que a cidade não quer se limitar à atração de centros de distribuição. “A logística é importante, mas continuamos trabalhando para atrair novas indústrias, principalmente dentro do programa de eletromobilidade.”
FEIRÃO
O mutirão de vagas para o Mercado Livre será realizado no Ginásio Poliesportivo localizado na Avenida Kennedy, número 1.155, no Parque Anchieta. Os postos são para o cargo de operador logístico, sendo 40 destinados a PCDs (Pessoas com Deficiência). O atendimento será realizado por meio de senhas.
O salário será de até R$ 2.317,00, com fixo mensal de R$ 2.126 mais bônus de R$ 191. Os futuros contratados terão transporte fretado gratuito, alimentação no local, vale-transporte, auxílio creche, convênio médico e odontológico, seguro de vida e psicologia.
OPERAÇÕES
Além de São Bernardo, o Mercado Livre alugou 90% do centro logístico da Goodman instalado na Avenida dos Estados em Santo André. O espaço tem 60.298 metros quadrados e foi inaugurado em novembro de 2025. O espaço passa a integrar a rede de logística urbana da companhia de e-commerce, com o objetivo de ampliar proximidade com o consumidor final e a capacidade de atendimento na Grande São Paulo.
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